Público - 9
Fev 07
Aborto - Um consenso é possível
Isilda Pegado
O tema do aborto tem gerado um debate fracturante,
duro, agressivo, radicalizado e extremado de parte a
parte. O que parece um erro por se tratar de uma
chaga social que todos desejamos combater. No
entanto, parece-nos que existem factores que são
consensualmente aceites na sociedade, e a partir dos
quais podemos encontrar uma resposta.
Parto desta constatação de consenso pelos trabalhos,
artigos de opinião e sondagens já publicados, e
também do contacto directo com a população.
Os pontos onde se mostra esse consenso:
1. O Aborto é um mal e todos o reconhecem. Álvaro
Cunhal dizia em 1940: "O aborto é um mal. Nisto
estão de acordo todos os escritores..."
2. Todos reconhecem que o aborto implica sempre a
destruição de uma vida humana. Não lhe chamo pessoa,
feto ou embrião. Falo em vida humana. A ciência e a
técnica encarregaram-se já de o demonstrar. Ninguém
nega que se trata de uma vida humana.
3. Todos reconhecem que o aborto implica sempre dor,
sofrimento e elevado risco de sequelas físicas e
psíquicas para a mulher.
4. Existe hoje um largo consenso quanto à lei de 84
que permite o aborto nas situações dramáticas de
malformação do feto, perigo de vida para a mãe ou
filho e violação. Neste referendo não está em causa
esta lei e não será alterada por via deste.
5. A lei actual tem encontrado na sociedade e
nomeadamente no meio judiciário um quadro de
aplicação que permite dizer que há mais de 20 anos
não há nenhuma mulher presa por aborto consentido em
relação à mulher grávida. E os julgamentos
publicitados reportavam-se na esmagadora maioria a
abortos praticados com mais de 10 semanas. A
recentemente aprovada Lei-Quadro de Política
Criminal reforça esta posição ao ordenar a não
realização de julgamentos por via da suspensão
provisória do processo. A lei penal do aborto está,
por isso, apenas votada à função dissuasora,
preventiva e profiláctica. Isto é, constitui hoje um
indicador social de que o aborto é um mal.
6. Há um forte consenso no sentido de que é
necessário combater o aborto por via do planeamento
e educação familiar, e ainda através de políticas de
solidariedade para com aqueles e aquelas que mais
carenciados e em risco se encontram.
Perante este conjunto de factos que nos parece
colher amplo consenso nacional, importa perguntar o
que está em causa no dia 11 de Fevereiro. O aborto a
pedido?
Porque seria livre o aborto, se é um mal? Se produz
sequelas graves na mulher? Se destrói uma vida
humana? Se não tem fundamento médico? Se é método
contraceptivo? Alterar a lei para quê? Apenas porque
se pretende o aborto livre até às 10 semanas, sem
limites nem condições ou porque se não deseja uma
gravidez?
O aborto fere um bebé (de morte), fere uma
mulher/mãe, fere um pai e uma família, o aborto fere
uma nação. Presidente Federação Portuguesa pela
Vida, Mandatária Plataforma Não Obrigada