A intromissão do Estado nos hábitos privados dos
cidadãos tornou-se um lugar-comum das sociedades
contemporâneas.
O Estado, que tanto incomoda em questões morais como
o aborto, transforma-se, consensualmente, num
polícia de costumes, quando o que está em causa é a
saúde dos cidadãos
Mantendo o seu silêncio de Estado sobre o referendo
ao aborto, o Presidente da República aproveitou uma
sessão da Academia Portuguesa de Medicina para se
debruçar, com inexcedível zelo, sobre a saúde dos
portugueses. Entre o direito à vida, a dignidade da
mulher e o alarido inconsequente deste estafado
debate, o prof. Cavaco Silva optou prudentemente por
um tema mais consensual, defendendo - e passo a
citar - "a necessidade de legislação e procedimentos
administrativos claros, não só sobre o tabagismo,
mas no combate ao consumo excessivo de álcool,
obesidade e estilos de vida sedentários". Como é
natural, as palavras do Presidente passaram mais ou
menos desapercebidas. A intromissão do Estado nos
hábitos privados dos cidadãos tornou-se um
lugar-comum das sociedades contemporâneas. O Estado,
que tanto incomoda em questões morais como o aborto,
transforma-se, consensualmente, num polícia de
costumes, quando o que está em causa é a saúde dos
cidadãos.
Assim se explica que o prof. Cavaco Silva, que tão
cuidadosamente evita pronunciar-se sobre a campanha
em curso, não tenha qualquer prurido em dissertar
sobre "a necessidade de legislação" para acabar com
os maus hábitos dos portugueses. E a verdade é que o
facto de o Presidente da República exigir
"procedimentos administrativos claros" contra
"estilos de vida sedentários", por exemplo, não
causou, entre nós, qualquer escândalo ou
perplexidade. Aparentemente, ninguém acha estranho
(ou sequer levemente suspeito) que o Presidente nos
queira obrigar, através de "procedimentos
administrativos claros", a trocar o almoço pelo
ginásio e o conforto do sofá pelo esforço de uma
corrida diária.
Depois do antitabagismo primário que invadiu a
Europa a partir dos Estados Unidos e do combate mais
recente contra a obesidade infantil e a má
alimentação das criancinhas, só faltava preencher
esta lacuna legislativa e obrigar os cidadãos a
abandonar os seus "estilos de vida sedentários",
mesmo que isso altere radicalmente o quotidiano de
quem vive diariamente entre a casa e o emprego.
Confesso que, neste caso, em particular, me custa
imaginar o teor dos tais "procedimentos
administrativos claros": uma pena pesada para quem
não praticar qualquer tipo de desporto? Multas de
valor considerável para quem se recusar a fazer o
seu jogging matinal? Benefícios fiscais para quem
esteja disposto a acampar, com a família, durante o
fim-de-semana ou para quem resolva aproveitar as
suas horas livres para fazer montanhismo? É difícil
prever!
Como é difícil prever os extremos a que chegará este
culto recente pela saúde que faz da longevidade um
bem em si mesmo e transforma a forma física num
valor universal e absoluto. Por razões misteriosas,
o Estado que não tem dinheiro para nos pagar a
reforma obriga-nos a ter uma vida longa e saudável e
a morrer tarde e a más horas, com os pulmões limpos
e os músculos em forma. Para eliminar a doença e não
sobrecarregar o Serviço Nacional de Saúde com
intervenções desnecessárias, decorrentes dos vícios
dos utentes e dos seus irreparáveis maus hábitos?
Infelizmente, a doença não se elimina: a crença numa
espécie humana saudável e asséptica, livre das
fraquezas que a caracterizam, é um mito
contemporâneo que abre a porta aos mais perigosos
delírios.
Mas, nos tempos que correm, o medo do inferno foi
substituído pelo horror à doença e a crença na
eternidade deu lugar ao sonho de uma longa e
saudável vida na terra. A saúde é que nos resta, num
mundo donde o sagrado desapareceu, deixando em seu
lugar uma crença alimentada pelo medo da morte e
pelos progressos da medicina. No Ocidente laico e
tolerante, onde as religiões tradicionais foram
remetidas a uma esfera puramente privada, a saúde
transformou-se na religião oficial do Estado, que
impõe coercivamente os seus valores através, como
diria o prof. Cavaco Silva, de "procedimentos
administrativos claros". Ninguém põe em causa os
dogmas da saúde - porque só na saúde se encontra
ainda uma verdade única e universal, regulamentada
por um Estado que tem o dever de zelar pelos hábitos
dos seus cidadãos.
Não admira que numa sociedade dominada pelo culto da
saúde, promovido e imposto pelo Estado, os hospitais
se encham de multidões de "crentes" que entopem as
Urgências perante o mais leve sintoma e que não
prescindem dos últimos avanços da medicina. O que já
é de admirar é que o Estado, que impulsiona esta fé
e este insustentável estado de coisas, se sinta
depois no direito de impor taxas moderadoras -
fingindo não perceber que a necessidade de moderação
decorre do desespero que é por si próprio
impulsionado. Se o Estado exige que os seus cidadãos
vivam até aos cem anos, livres de achaques e de
mazelas, não pode depois esperar que estes não se
deixem contagiar por esta dolorosa fantasia. Os
hospitais são as igrejas dos nossos dias. Jornalista