Existirão poucos dias mais bizarros do que os
denominados "dias de reflexão". Reza a explicação
corrente que se trata dum arcaísmo sobrante dum
tempo, os anos 70, em que, não estando ainda a
democracia consolidada em Portugal, se temiam os
golpes de propaganda escassas horas antes de se ir a
votos. Hoje não só isto não tem qualquer validade,
como a própria tecnologia acabou por tornar a lei
mais evidentemente obsoleta. Por exemplo, o dia de
reflexão também se aplica aos blogues? Apenas aos
blogues colectivos? E se não se colocar qualquer
comentário no dia de reflexão deixando assim à vista
os comentários feitos anteriormente está a violar-se
a lei eleitoral? Às questões tecnológicas juntam-se
as humanas: sabendo que no dia seguinte vai ter
lugar um acontecimento importante, como se devem
comportar os jornalistas? Assobiam para o ar?
Escrevem sobre um país de faz de conta?
Recordo que após as últimas eleições presidenciais
um dos candidatos derrotados apresentou uma queixa
contra o Diário de Notícias junto da Comissão
Nacional de Eleições (CNE). A razão da queixa
prendia-se com o artigo intitulado "Três cenários em
aberto", publicado por aquele jornal no próprio dia
das eleições. Nesse artigo, como o próprio título
deixava antever, eram equacionados apenas três
cenários como desfecho das presidenciais e um dos
candidatos, Cavaco Silva, era apresentado como o
provável vencedor. Para a CNE "Três cenários em
aberto" "é um artigo de carácter ensaístico e
especulativo que faz projecções de natureza
tendenciosa, propondo ao eleitor hipóteses mais
reduzidas do que as existentes na realidade". Estes
considerandos da CNE seriam válidos, caso o Diário
de Notícias fosse um boletim de voto ou um edital
duma junta de freguesia. Mas não é. Ao contrário do
que diz a CNE, não são os artigos de "carácter
ensaístico" que têm de fazer propostas aos
eleitores. Esse é o trabalho e a razão de ser dos
candidatos, partidos ou movimentos.
Por outro lado, o que está implícito nesta tese da
CNE é que os jornais, rádios e televisões devem
ficcionar igualdades e não analisar a realidade: só
se o Diário de Notícias fosse editado em Marte é
que, em Janeiro de 2006, apresentaria como provável
a vitória de Mário Soares, Francisco Louçã, Jerónimo
de Sousa ou Garcia Pereira nas presidenciais que
então se disputavam. Ainda segundo a CNE, a
publicação, durante a campanha eleitoral e nos dias
de reflexão, de artigos em que se traçam cenários
que não incluem todas as hipóteses de
vitória/derrota pode "perturbar o exercício de um
direito de voto livre e consciente." Se todos
percebemos o que é a liberdade de voto, já o mesmo
não se pode dizer sobre a consciência do voto. O que
é o voto consciente? Pressupõe isto que existem
eleitores mais conscientes uns do que os outros? Não
creio. Existem sim concepções muito preconceituosas
sobre o eleitorado e a sua capacidade de escolha.
Espero francamente que num próximo acto eleitoral já
tenha desaparecido a reflexiva figura e que a
informação e a opinião possam abandonar esta espécie
de estado alienado de excepção em que agora vivem
desde a véspera dos actos eleitorais até ao fecho
das urnas.
2. Para nos consolarmos sobre as idiossincrasias da
nossa lei eleitoral nada melhor do que
informarmo-nos sobre as leis que regem os outros
neste domínio. E aí o caso francês é eloquente.
Termos como "padrinho" e "apadrinhamento" que
estamos habituados a encontrar em contextos pouco
recomendáveis são repetidos à exaustão nas
presidenciais francesas. Por outras palavras, em
França não basta ter apoio popular para se ser
candidato à Presidência da República. É
indispensável também recolher 500 assinaturas entre
cidadãos eleitos como deputados e presidentes de
câmara. Assim estamos perante um sistema fechado,
hostil a quem vem de fora, em que os eleitos se
protegem entre si e reforçam teias de cumplicidades.
O sistema de parrainage oficialmente apresentado
como um mecanismo preventivo face aos candidatos
excêntricos ou folclóricos pode levar a que um
candidato com forte apoio popular fique de fora. E
esse é actualmente o caso de Le Pen. Pode arriscar
uma democracia não integrar no quadro eleitoral um
candidato com o apoio que Le Pen tem? As actuais
discussões em torno da revelação da identidade dos
padrinhos de cada candidatura e sobre a
possibilidade de os eleitos por um partido
apadrinharem um candidato que não o desse mesmo
partido são os sinais exteriores da degradação
gerada por um sistema eleitoral pouco transparente.
E a pedir mais reflexão.
3. Nos mesmos dias em que jornais e noticiários se
enchiam com notícias sobre jovens brasileiras
vítimas de anorexia, uma família na qual se contava
uma criança foi barbaramente agredida numa cidade
brasileira. Este seria apenas mais um assalto nos
arredores de São Paulo, caso os agressores não
tivessem também condenado a morrer queimadas as suas
vítimas. Fora do Brasil poucas ou nenhumas linhas se
dedicaram à morte de Eliane Faria da Silva, do seu
marido, Leandro Oliveira, e do filho de ambos,
Vinicius, que contava apenas 5 anos. Serão as suas
mortes menos importantes que as das jovens
anorécticas? De modo algum. Simplesmente a anorexia
tal como o tabagismo ou a obesidade são problemas
que se podem abordar sem correr o risco de se ser
considerado populista. Já o mesmo não se pode dizer
da delinquência urbana. Nessa matéria ou se contam
as histórias dos bandos, ou quando muito fazem-se
umas análises sociológico-psicanalíticas dessa mesma
violência. Relatá-la é que não.
Esta espécie de pudor não sei se estético, se
político faz tanto sentido quanto não relatar casos
de fome, desemprego, guerra ou corrupção. Mas na
verdade é assim. Há algumas décadas o mesmo
preconceito estendia-se aos casos de violência
conjugal e aos maus tratos infantis. Quando muito
essas notícias eram atiradas para as pequenas
secções. Aí, no meio dos relatos sobre mortes à
sacholada por questões de águas e envenenamentos que
procuravam extinguir paixões, encontramos mulheres
espancadas até à morte e crianças esgotadas pela
vida e pelos maus tratos. Actualmente a chamada
"imprensa de referência" dá particular importância a
estes casos que outrora cabiam no que designava como
"faca e alguidar". Mas ainda não consegue relatar os
assaltos, a violência... Por enquanto prefere falar
de anorexia, obesidade e mil outras patologias
invariavelmente associadas aos comportamentos.
Frequentemente até se noticia em tom festivo a
adopção de medidas autoritárias por parte de alguns
países para combater esses mesmos comportamentos.
Será aceitável, por exemplo, que um governo mande
calcular o índice de massa corporal das mulheres?
Esta recente iniciativa do Governo espanhol, que se
junta à sua decisão de não permitir que desfilem em
certames de moda mulheres abaixo dum determinado
peso, é dum autoritarismo inquietante. Mas mais
inquietante ainda é a percepção de que hoje, tal
como no passado, as matérias comportamentais
funcionam como uma espécie de filtro da realidade e
caução de um poder tão ineficaz quanto intrusivo.
Jornalista