Público - 17
Fev 07
Crianças, riqueza, educação, família e felicidade
José Manuel Fernandes
Claro que é difícil medir o bem-estar e a felicidade
de alguém aos 11, aos 13 ou aos 15 anos, como
pretendeu fazer o estudo da UNICEF. Mas o que ele
nos mostra é que nem sempre mais riqueza corresponde
a mais bem-estar
O perturbante livro de John Gray Sobre Humanos e
Outros Animais de que pré-publicámos um excerto no
passado domingo coloca um problema que choca com as
nossas culturas pós-iluministas: a de que felicidade
não rima obrigatoriamente com progresso, tanto no
sentido material do termo como no sentido de,
geração após geração, as sociedades se tornarem
melhores e mais justas. "A acção política tornou-se
um sucedâneo da salvação; mas nenhum projecto
político pode libertar a humanidade da sua condição
natural", escreve John Gray, que logo a seguir
escolhe para epitáfio do primeiro capítulo uma frase
de um notável e influente biólogo evolucionista,
Jacques Monod: "Todas as religiões, quase todas as
filosofias e até mesmo uma parte da ciência são
testemunho do esforço incansável e heróico da
humanidade para negar desesperadamente as suas
limitações".
Pessimismo? Talvez não. Antes algum realismo e o
necessário cepticismo sobre o ser-se Homo sapiens.
Por isso, mesmo não partilhando das conclusões do
filósofo britânico, é interessante olhar para os
resultados do estudo levado a cabo pela UNICEF para
avaliar o grau de "felicidade" - se é que tal
qualidade é mensurável... - das crianças do mundo
desenvolvido. Portugal, sem surpresa, ficou mal
classificado: 17.º lugar entre 21 países. Porém, o
que surpreende no método de análise é que ele tenha
permitido que ficássemos quase a par da França (16.º
lugar) e à frente da Áustria (?), dos Estados Unidos
e de um Reino Unido que surge precisamente em último
lugar.
Como explicar que as nossas crianças possam ser
consideradas mais felizes do que as austríacas ou as
inglesas? Olhando para os diferentes critérios de
avaliação, verificamos que Portugal fica sempre mal
ou muito mal classificado em todas as categorias
(bem-estar material, 16.º, saúde e segurança, 14.º,
educação e bem-estar, último lugar, comportamentos e
riscos, 15.º, e bem-estar subjectivo, 14.º). Para
conseguirmos evitar um lugar pior na tabela,
sobretudo tendo em consideração as miseráveis
prestações nos diferentes itens relativos à
Educação, houve um factor que a UNICEF valorizou e
nos colocou em segundo lugar entre 21 países: as
boas relações das crianças com a família e com os
seus pares.
Considerando que a UNICEF está muito longe de poder
ser considerada uma organização conservadora ou
neoliberal - bem pelo contrário - não deixa de ser
significativo que na avaliação dos diferentes itens
tenha valorizado tanto a família. Para a UNICEF é
factor de infelicidade das crianças viverem num
família monoparental ou com padrastos ou madrastas;
em contrapartida, é factor de bem-estar as crianças
tomarem as refeições com a família, conversarem
regularmente com os pais, não fumarem ou
experimentarem drogas demasiado cedo e, veja-se lá,
não ter sexo demasiado novo. Esta última situação
tem uma explicação: relações sexuais precoces,
frequentes e variadas conduzem a demasiadas
gravidezes na adolescência em que a jovem mãe fica
sozinha com o filho nos braços. O único indicador em
que Portugal surgia mal no domínio das relações
familiares era o referente à violência no interior
do lar.
Claro que é difícil medir o bem-estar e a felicidade
de alguém aos 11, aos 13 ou aos 15 anos, como
pretendeu fazer este estudo. Mas o que ele nos
mostra é que nem sempre mais riqueza corresponde a
mais bem-estar e que se algo é comum aos países da
frente (Holanda, Suécia, Dinamarca e Finlândia) é a
sua cultura de grande exigência moral capaz de
conviver com graus elevados de liberdade. Isto é, o
casamento de liberdade e responsabilidade típicos da
ética protestante evocada nos ensaios clássicos de
Max Weber.
É por tudo isso que o pessimismo de Gray por
contraponto ao optimismo "progressista" dá que
pensar.