Diário de Notícias -
22 Fev 07
Governo ameaça agravar penalização já em 2008
Manuel Esteves
O Governo ameaçou ontem agravar já em 2008 a taxa de
penalização das reformas antecipadas caso os
sindicatos recusem o projecto que aplica à função
pública a reforma da Segurança Social, acordada
entre os parceiros sociais em concertação social
(com a excepção da CGTP). A ameaça, em jeito de
chantagem, partiu do próprio secretário de Estado
adjunto e do Orçamento em declarações aos
jornalistas à margem das reuniões negociais com os
sindicatos. Basicamente, Emanuel dos Santos admitiu
retirar a sua proposta anterior de adiar o
agravamento da taxa de penalização das reformas
antecipadas de 4,5% para 6% para 2015.
"Dou a possibilidade da taxa de penalização de 6%
entrar em vigor só em 2015. Está do lado dos
sindicatos aceitar ou não", afirmou Emanuel Santos
aos jornalistas. Porém, acrescentou, "se os
sindicatos continuarem a pôr estas questões [factor
de sustentabilidade] em causa também revejo a minha
posição de só entrar em vigor em 2015", disse,
argumentando que "não podemos aplicar parcialmente e
só aquilo que é mais favorável para os
funcionários".
Esta ameaça dirige-se à Frente Comum e ao Sindicato
dos Quadros Técnicos do Estado, que rejeitam a
aplicação do factor de sustentabilidade às pensões,
reduzindo-as em função dos ganhos futuros da
esperança média de vida. "Não aceitamos a
harmonização dos regimes" disse Ana Avoila aos
jornalistas.
Também Bettencourt Picanço foi claro nesta matéria.
Em declarações ao DN disse ser "contra a proposta do
Governo" em matéria de pensões. E explicou: "O
Governo não aceitou nenhuma das nossas sugestões e
continua a exigir que sempre que haja fraccionamento
do tempo de antecipação [por exemplo, 2,5 anos] se
aplique a taxa de 6%".
Deste modo, a Fesap, liderada por Nobre dos Santos
(com quem o DN não conseguiu entrar em contacto
ontem) surge como a única estrutura sindical que se
predispõe a aprovar aquele projecto do Governo,
secundando a sua central sindical, UGT, que assinou
o acordo em sede de concertação social.
Sindicatos querem reforma das carreiras mais radical
Apesar desta polémica, o principal "prato" no menu
das negociações de ontem ontem era mesmo a revisão
do sistema de carreiras na Função Pública. O
secretário de Estado da Administração Pública, João
Figueiredo, reafirmou a intenção em reduzir o número
de carreiras que quantificou em cerca de 1200. O
relatório da comissão técnica presidida por Luís
Fábrica contabilizou 1179, das quais 653 do regime
geral, 119 dos regimes e corpos especiais e 407
categorias isoladas.
Mas neste ponto, Governo e sindicatos parecem
inverter os papéis habituais. Tanto a Fesap, como o
STE, reclamam uma reforma mais radical do que aquela
que o Executivo propõe. "O Governo quer reduzir o
número de carreiras, mas pouco", diz Picanço. "O
Governo vai manter a grande maioria das carreiras
especiais existentes", deixando quase tudo na mesma.
Em contrapartida, propôs uma única carreira para os
trabalhadores da AP, que se dividiria numa grelha de
profissões que respeitasse o sistema nacional de
classificação de profissões, do INE. "As carreiras
devem distinguir-se pelos conteúdos funcionais e
nunca pelas áreas funcionais."
A FESAP, por seu lado, "insistiu na necessidade de
proceder a uma verdadeira reforma no sistema de
carreiras, e não apenas efectuar algumas alterações
pouco mais que cosméticas". E como pressuposto
fundamental para esta negociação, a Fesap exige "a
eliminação de barreiras orçamentais que impeçam que
os trabalhadores que apresentem melhores resultados
sejam devidamente recompensados".