Público - 01
Fev 08
A miopia do poder central
Graça Franco
Vale a pena a passar os olhos pelas listagens do INE
para nos darmos conta de que não vivemos num país,
mas em váriosAzar mesmo é nascer em Castelo Branco
ou para os lados de Idanha-a-Nova, na Beira
Interior, onde em pleno século XXI a esperança média
de vida à nascença da gente que por lá reside se
fica nos 68 anos e meio. Dez anos menos (leu bem,
dez!) do que a média calculada para Portugal. As
médias são assim. Matreiras. Misturam a fome de uns
com a gula dos outros e garantem-nos que não vale a
pena preocuparmo-nos porque andamos todos bem
alimentados.
A esperança média de vida à nascença em Portugal não
é excepção. Era, segundo os anuários estatísticos
regionais do INE, para 2006 (divulgados há poucas
semanas), de 78 anos e meio, o que é compatível com
a presença do país entre os primeiros 30 lugares no
ranking de Desenvolvimento Humano da ONU, onde o
índice é visto como bom indicador dos cuidados de
saúde.
Vieira da Silva tem razão: vivemos cada vez mais e é
justo que trabalhemos em conformidade ou descontemos
reforçado para pagar os quase 15 anos de descanso
esperado.
Mas vale a pena perder algum tempo a passar os olhos
pelas listagens do INE para nos darmos conta de que
não vivemos num país, mas em vários.
Os mapas são claros: mostram um pequeno Portugal
"europeu", litoralizado, e uma enorme faixa de um
outro qualquer país que envelhece esquecido e
atrasado e que vive mal e ganha pior.
O país desdentado que insiste em mostrar-se em
protestos contra a justeza das políticas da elite
central. Cheio de desmancha-prazeres que, certamente
a mando da cacicagem local, insistem em mostrar uma
realidade que desmente a bondade dos estudos
centrais.
As diferenças regionais para quase tudo são
assustadoras. Mas centremo-nos nesta, porque
simbólica. Na região da Grande Lisboa, onde se
concentram mais de dois milhões de residentes, a
esperança média de vida à nascença sobe para quase
80 anos, o que significa mais um ano e quatro meses
do que a média geral. Em Lisboa tem-se a falsa
ilusão de se viver na Europa. O pior é o resto, e o
resto é cada vez mais paisagem.
Na esperança de vida, o resultado nem será dos
piores. A média é superada por exemplo no Alentejo
Central e até os valores de Lisboa são superados por
regiões como Entre Douro e Vouga (onde apenas
residem 286 mil pessoas). Acima da média
encontram-se o Ave, o Tâmega ou mesmo o Baixo Vouga
(onde se situa Anadia, que, quem sabe por isso, não
está disposta a abdicar do sistema de saúde actual).
Mas o quadro torna-se negro quando olhamos a Cova da
Beira e vemos que a esperança de vida à nascença
ainda se fica ali pelos 70 anos. Na serra da Estrela
já não passa os 68,6 e na Beira Interior cai para 68
e meio.
Um valor igual à esperança média de vida em Cabo
Verde ou da Turquia, países de "desenvolvimento
humano dito médio". Como se explica isto? Não sei.
Sei apenas que quando o senhor ministro da Segurança
Social nos decreta que temos de trabalhar mais ou
descontar mais, porque não pára de crescer a nossa
"esperança de vida", devia em justiça exceptuar
aquelas gentes. Afinal, a expectativa para os que lá
nascem é de se finarem escassos três anos depois de
abandonarem o trabalho. Se optarem por prolongar a
vida activa, para não verem reduzida a reforma, não
chegarão sequer a ver a dita. Media dixit.
Isto quando, como no caso da Beira Interior, já em
plena vida activa recebia em média menos duzentos
euros de salário (uns parcos 723 euros contra 907 de
média geral).
É que as disparidades passam por tudo. O salário
médio dos trabalhadores por conta de outrem é só
outro exemplo. Mondim de Basto (no Tâmega) exibe o
valor mais baixo: 527 euros. Sabem o que isso
significa? Que a média em Mondim de Basto se fica a
58 por cento do geral, a rondar uma espécie de linha
da "pobreza relativa entre assalariados".
Os dados são de 2005, mas lembram-se do prometido
apoio para os idosos mais pobres que Sócrates
anunciou subir agora para 400 euros para não os
deixar abaixo da linha de pobreza? Pois é.
Mas há pior. A diferença salarial é enorme para
todos os níveis de formação, ou seja, nem uma
licenciatura é garantia de sair desta enorme pobreza
relativa.
Em Portugal, o ganho médio mensal de um trabalhador
por conta de outrem era, no mesmo ano, de 907 euros.
Contudo, a remuneração variava substancialmente com
a qualificação média. Os trabalhadores com apenas o
primeiro ciclo do ensino básico ficavam-se por uma
média de 578 euros mensais (apenas 64 por cento da
remuneração média global), enquanto os licenciados
conseguiam um salário médio pouco abaixo dos dois
mil euros, ou seja, mais do dobro da média global. É
o efeito de info-exclusão.
Mas em Mondim de Basto, onde residem menos de 9 mil
almas, o ganho médio mensal dos trabalhadores não só
ficava pouco acima dos 500 euros como, aí, mesmo um
trabalhador por conta de outrem, licenciado, ganhava
em média apenas 886 euros por mês, o que significa
apenas mais 91 euros do que o salário médio nacional
de um assalariado com apenas o nono ano de
escolaridade.
Ou seja, nem uma licenciatura em Mondim de Bastos
chega para sair da pobreza. Os poucos que são
licenciados chegam a ganhar menos, em média, do que
os bacharéis da zona, o que também nos diz algo
sobre a qualificação "média" do trabalho por lá.
Em Sines passa-se o mesmo, mas a explicação é outra.
Quer bacharéis, quer licenciados, ganham bastante
acima da média nacional. Os bacharéis têm um salário
73 por cento superior à média para os trabalhadores
com as mesmas habilitações, enquanto o salário dos
licenciados de Sines fica 16 por cento acima da
respectiva média nacional. Eis a prova do valor
relativo de certas qualificações "intermédias"
nalguns mercados.
Mas, adiante, porque quase tão mal pagos quanto os
assalariados de Mondim de Basto estão os
trabalhadores de Barrancos, no Baixo Alentejo, seja
qual for a sua qualificação. E se mais contas se
fizessem mais exemplos haveria.
Pergunto-me se no Terreiro do Paço e na 5 de Outubro
se trabalham estes números. Portugal tem apenas 1,6
milhões de crianças com menos de 14 anos. Mas em
nove municípios da Grande Lisboa estão concentradas
315 mil (Lisboa tem só por si 68 mil).
Na península de Setúbal estão 122 mil e só no Seixal
28 mil. Mais do que nos quinze municípios do Alto
Alentejo (onde, tudo somado, há só 15 mil crianças).
Ou do Pinhal Interior Norte, com menos de 20 mil
crianças para 14 municípios. Para nem falar da Beira
Interior Norte com as suas 14 mil crianças ou da
Beira Interior Sul com menos de 9 mil. Num país
assim, para que nos servem as "médias" senão para
nos chamar a atenção para as diferenças?
Só em Cascais há mais crianças do que em quase duas
dezenas de municípios que constituem toda a região
do Douro.
Deve estar aqui a explicação para aqueles rácios
fantásticos da relação professor/aluno. Para aquelas
"médias" notáveis que a ministra exibe e se dedica a
melhorar. E que nunca batem certo com a realidade
das escolas que conhecemos com turmas sobrelotadas,
a abarrotar, e onde os professores não dispõem de
espaço nem sequer para os cabides onde deixar os
casacos...
E é neste país de contrastes onde a maioria
bem-pensante jura que não nos faz falta nenhuma a
regionalização. Jornalista