Público - 11 Fev 08
Aniversário de um logro
Francisco Sarsfield Cabral
O Estado passou a promover activamente o aborto até
às dez semanas
Foi há um ano o segundo referendo sobre o aborto em
Portugal. O Governo tinha maioria no Parlamento para
fazer passar uma nova lei do aborto. Mas, tendo o
"não" ganho o referendo de 1998 (com uma abstenção
de quase 70 por cento, tornando não vinculativos os
resultados), o PS entendeu, e bem, que politicamente
não poderia dispensar um novo referendo.
Embora a participação não tenha ultrapassado os 50
por cento necessários para tornar vinculativo o
referendo, há um ano venceu claramente o "sim". O
que deu legitimidade política à mudança na lei.
Reconheço-o sem dificuldade, tendo votado "não". As
críticas que faço ao que se passou não são uma
manifestação de mau perder. Apenas protesto contra o
logro a que muita gente foi levada. O grande
argumento dos defensores do "sim" era a alegada
necessidade de despenalizar a prática do aborto até
às dez semanas de gravidez. Isto para evitar prisões
(que aliás não existiam) de mulheres e a sua
humilhação nos tribunais (que geralmente as
absolviam). E também para reduzir o aborto
clandestino, com todos os seus riscos.
A pergunta do referendo, idêntica à de 1998, era
ambígua: "Concorda com a despenalização da
interrupção voluntária da gravidez, se realizada,
por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em
estabelecimento de saúde legalmente autorizado?"
Esta formulação abria a porta, não à proclamada
despenalização, mas à liberalização do aborto, feito
a pedido, sem qualquer condicionante e pago pelos
impostos de todos nós.
Após o apuramento dos resultados do referendo e
festejando a vitória do "sim", o primeiro-ministro
teve palavras que pareciam afastar esse risco,
prometendo uma regulamentação sensata do aborto,
seguindo as melhores práticas europeias.
Infelizmente, o que se passou entretanto desmentiu
tal ideia e confirmou os piores receios: o Estado
passou a promover activamente o aborto até às dez
semanas.
A lei alemã, por exemplo, prevê um aconselhamento
prévio à mulher que pretenda abortar, onde se
encoraja a continuação da gravidez. Por cá, tal
aconselhamento foi considerado uma intolerável
violação da liberdade da mulher (fraca ideia têm do
que é liberdade). Esta nem sequer é obrigatoriamente
informada sobre o que se passa com o feto, através
de ecografias, por exemplo. Mostrar que está ali um
ser vivo poderia levar a mulher a não abortar...
Os médicos objectores de consciência estão proibidos
de participar na consulta prévia e no
acompanhamento. E é facultativo o acompanhamento por
técnicos do serviço social e psicólogos, que
poderiam evitar o aborto encontrando outras soluções
para a mulher.
O que se pretende é incentivar o aborto, gratuito
até às dez semanas, não sendo precisa qualquer
justificação: pode ser realizado apenas porque não
apetece à mulher ter a maçada de uma gravidez. E o
aborto a pedido não paga qualquer taxa moderadora,
ao contrário de tantas intervenções médicas
indispensáveis à saúde das pessoas. O aborto a
pedido beneficia, ainda, do apoio da Segurança
Social, idêntico ao do aborto espontâneo (salário na
íntegra, sem impostos, entre 14 e 30 dias). Em
Novembro afirmou o bastonário da Ordem dos Médicos
que "hoje é mais fácil fazer uma IVG no Estado do
que obter uma pílula contraceptiva gratuita".
Politicamente, é compreensível este empenho
governamental na promoção do aborto no Serviço
Nacional de Saúde. Criticado à esquerda pelas suas
políticas económicas e financeiras "ortodoxas",
restam as "questões fracturantes" para o Governo e o
PS tentarem demarcar-se da direita. Se o PS ganhar
de novo as eleições, provavelmente virão o casamento
homossexual, a adopção de crianças por gays e
lésbicas, etc.
Será bom que, antes da votação, o PS diga claramente
o que pretende fazer nestas áreas. É que, para
logro, já basta o aborto, em que enganaram os
portugueses com uma alegada despenalização, quando
afinal veio não só uma liberalização, como uma
empenhada promoção do aborto.
Mas os esforços governamentais parecem não estar a
atingir os seus objectivos: o número de abortos
voluntários nos hospitais públicos encontra-se a
pouco mais de metade das previsões oficiais. Uma das
mais baixas taxas do mundo, um caso excepcional,
segundo o coordenador do Programa Nacional de Saúde
Reprodutiva (Diário de Notícias, 29.11.07). Ironias
da história.
Jornalista