Público -
15 Fev 08
A biologia da fidelidade e a evolução do homem
José Manuel Fernandes
Ontem foi dia de fazer juras de amor eterno. E de
ler um curioso texto sobre as vantagens biológicas
da fidelidade
Ontem, dia dos namorados, o diário inglês The
Guardian publicava um artigo inesperado num jornal
ligado à esquerda britânica. Assinado por um
professor de genética molecular, Johnjoe McFaden, o
texto defendia: "[Foi a] fidelidade que permitiu aos
nossos antepassados desenvolver a inteligência
social e a coesão social."
De acordo com aquele cientista, os seres humanos
"têm a sorte" de pertencer a uma espécie que se
comporta de forma predominantemente monogâmica.
Porquê? Porque alguns trabalhos de investigação
recentes "sugerem que as exigências cognitivas
requeridas para formar casais estáveis podem estar
entre os factores para o desenvolvimento dos
intrumentos de inteligência social que tornaram
possíveis as nossas sociedades". Para chegar a esta
conclusão, aquele professor da Universidade de
Surrey começa por discutir e rebater as duas teorias
que habitualmente são avançadas para o aumento
progressivo das capacidades cerebrais e cognitivas
dos primatas: a de que estas teriam sido
desenvolvidas por esses nossos antepassados viverem
em ambientes ecologicamente exigentes ou por viverem
em grupos numerosos. O principal problema dessas
duas teorias é que existiram e existem muitas outras
espécias que têm de enfrentar ambientes hostis ou
vivem em grupos numerosos e não encontramos nelas um
desenvolvimento cerebral semelhante.
Já a hipótese de a, chamemos-lhe assim, "fidelidade
conjugal" estar associada a cérebros maiores e mais
poderosos é confirmada em grupos animais muito
diversos, desde algumas aves às raposas. Em
contrapartida, as espécies com comportamento
poligâmico (aquelas em que várias fêmeas partilham
um macho) ou poliândrico (onde se partilha uma
fêmea) possuem, por regra, cérebros menos
desenvolvidos. Existe um conjunto de explicações
coerentes com os mecanismos da selecção natural
darwirniana que justificam estas diferenças, algumas
delas confirmadas por estudos recentes.
Por isso, conclui, "se o amor já não move o mundo, a
fidelidade pode ter estado na origem do
desenvolvimento das nossas capacidades cognitivas e
sociais", logo, a fidelidade terá tornado possível
sociedades complexas como são as humanas.
Sem entrar nos sempre intermináveis debates sobre o
que é inato e o que é adquirido na natureza humana,
alguma reflexão sobre estes mecanismos biológicos
poderia ajudar-nos a perceber melhor se os estilos
de vida que começam a ser dominantes (um exemplo:
apesar de não se conhecerem números exactos para
quantos casamentos acabam em divórcios, as mais
recentes estatísticas do INE indicam que todos os
anos há um divórcio para cada dois casamentos, um
pouco acima da média europeia) são os mais
adequados.
É evidente que, não devendo o Estado entrar na casa,
e muito menos na cama, de qualquer cidadão, e
devendo manter-se longe dos estilos de vida que
estes escolhem seguir na sua esfera íntima, o debate
público destes assuntos não deve ser tabu. Sobretudo
não se deve nem assumir que a biologia nos
determina, nem que ela nos é totalmente indiferente.
Fazê-lo talvez ajudasse a perceber melhor o que tem
mais probabilidade de nos tornar felizes ou
infelizes, assim como aqueles que vivem connosco.
Vale tanto mais a pena ir por esse caminho de cabeça
aberta e atenta aos diferentes argumentos e pontos
de vista quanto essa tal felicidade é,
provavelmente, o valor social mais difícil de
definir. Tão difícil que a ideia de "procura da
felicidade" como um direito humano inalienável está
ausente da maioria dos textos constitucionais (a
palavra "felicidade" não consta da nossa
Constituição, por exemplo, como não consta da
Declaração Universal dos Direitos Humanos). Entre os
textos constitucionais mais importantes só a
encontramos no preâmbulo da Declaração de
Independência dos Estados Unidos, onde se consideram
como direitos inalienáveis o direito à vida, à
liberdade e à "procura da felicidade".