Público -
17 Fev 08
Estudar para o desemprego
Vasco Pulido Valente
Desde que o regime começou a funcionar regularmente,
não houve Governo, não houve ministro, não houve
político que não viesse proclamar que o futuro de
Portugal e dos portugueses estava na educação. A
educação era sempre uma "prioridade". Depois foi a
"prioridade das prioridades", para acabar, na falta
de mais superlativos, na "paixão" de António
Guterres, declarada e redeclarada com a enjoativa
pieguice da criatura. Muita gente avisou que tudo
isto não passava de uma ideia perigosa e falsa.
Ninguém ouviu. Pior ainda, milhares de pessoas
levaram inteiramente a sério a demagogia oficial.
Pais que sofreram e pouparam para educar os filhos.
Filhos que esforçadamente tiraram um curso. E agora?
Agora, de acordo com o INE, Portugal tem 60.000
licenciados no desemprego.
Como se chegou aqui? Por que razão esta aberração
durou o que durou, perante a passividade e o
consentimento das vítimas? Primeiro, porque ao
princípio (na fase da "quantidade", como lhe chamou
Cavaco) a "educação" criou emprego e disfarçou (e
continua a disfarçar) o desemprego. Criou emprego
para professores (frequentemente de uma total
incompetência) e disfarçou o desemprego metendo na
universidade centenas de milhares de jovens, que de
outra maneira entrariam no mercado de trabalho.
Segundo, porque a "educação", em particular do
género "superior", serviu durante anos para a
"iniciativa privada" (sem espécie de fiscalização do
Estado) montar uma vigarice imperdoável e cruel, que
explorou até ao tutano a esperança de ascensão
social dos portugueses.
Dos 60.000 licenciados no desemprego (um escândalo
difícil de esconder) nasceu recentemente uma tese
peregrina: a tese da "empregabilidade" dos cursos,
que sustenta a existência de cursos com ou sem
"saídas profissionais". Mariano Gago prometeu mesmo
publicar uma lista com essa absurda discriminação.
No fundo, e tirando os casos de uma enormidade
notória, os responsáveis pela catástrofe querem
transferir a culpa do desemprego para os
desempregados: não escolheram bem, portanto não se
queixem. Só que as sobreditas "saídas profissionais"
não dependem essencialmente do curso, dependem da
habilitação e da capacidade. O ensino indígena
(como, de resto, o próprio país) despreza por
princípio a capacidade e "habilita" para pouco ou
para coisa nenhuma. É esse o ponto e essa a
tragédia.