Diário de Notícias -
28 Fev 08
Sócrates e as crianças
Pedro Lomba
José Sócrates disse ontem, a fechar as jornadas
parlamentares do PS, que as reformas da educação são
para continuar "a pensar nas crianças". Mais uma vez
Sócrates vem em socorro de um ministro em apuros, no
caso a Ministra Maria de Lurdes Rodrigues. Mas, além
do termo demagógico e estudado ("crianças" em vez de
estudantes ou alunos), o que disse Sócrates, a sua
promessa de que o Governo irá continuar a agir "a
pensar nas crianças", serve para perceber duas
coisas: em primeiro lugar, o modo como ele encara o
conflito aberto e ainda não sanado entre a Ministra
e os professores por causa do novo regime de
avaliação. Segundo, o que o primeiro-ministro pensa
do papel do Governo na reforma do ensino. A ideia de
Sócrates, com algum simplismo, é a de que os
protestos dos sindicatos e professores contra o
sistema de avaliação e as regras de gestão das
escolas prejudicam as "crianças", para as quais as
escolas existem e que os professores deviam
fielmente servir. Não é por discordância (uma
discordância política) contra a oportunidade e a
racionalidade dessas medidas que os professores
reagem. Sócrates não lhes reconhece legitimidade
para tanto. Não se interessa sequer em rebater um a
um os argumentos dos professores, limitando-se a
gabar que o Governo tenha sido o primeiro a
introduzir a avaliação dos professores nas escolas e
acusando assim implicitamente os professores de não
quererem essa avaliação.
Não, o que diz Sócrates é que a oposição dos
professores às medidas do Governo assenta num
conflito de interesses. É assim que Sócrates vê o
mundo do ensino: os professores contra as
"crianças". Os privilégios dos professores contra os
interesses das "crianças". O próprio método de
avaliação que o Governo defende para os professores
faz depender a apreciação do mérito dos professores
do êxito das "crianças". Evidentemente que assim não
há escolha possível. Os professores defendem-se a si
próprios e ao seu estatuto de "irresponsabilidade",
e o Governo defende "as crianças". É verdade que,
depois disto, Sócrates e a Ministra da Educação
deixam de contar com os professores. Estranhamente,
trouxeram para a reforma da educação o mesmo quadro
mental que têm aplicado na Administração Pública ou
no Estado: a função do Governo consiste, num
conflito entre agentes do "sistema" que o próprio
alimenta, em enfraquecer e isolar os interesses
ilegítimos. Esquecem-se que não se pode pôr os
professores contra os alunos e vice-versa, tal como
se confrontam os funcionários de um serviço do
Estado com outros funcionários. O ensino exige que
os professores mantenham uma autoridade e
legitimidade institucional independente dos alunos.
Muito diferente do que quer este Governo.