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6 de Janeiro de 2001 - Correio da Manhã
Pais com muitos filhos
por MARGARIDA LANCASTRE
Em Portugal a média de filhos por casal é 1,4, um número que reflecte a crise demográfica que alastra no Ocidente. No entanto, ainda há famílias numerosas que resistem. Vivem com dificuldades, mas sem dramas. Aqui fica o retrato de uma família que vive em grande.
"Aconteceu! Acho que o que tem de ser tem muita força. Foram acontecendo uma série de acasos e esses acasos tornaram-se numa obra de arte!" Enquanto fala, Eduardo Azevedo recheia o discurso com gargalhadas soltas. Saem-lhe de forma espontânea no final de cada afirmação, ou mesmo a meio das frases quando apanha um dos filhos a fazer uma asneira. Os acasos, entenda-se, são as gravidezes, a obra de arte é a família. Cinco filhos. Um número que, há uns anos teria sido considerado quase irrisório. Mas hoje são poucas as famílias que se dispõem a tê-los.
Regras básicas
Eduardo veste fato cinzento e gravata clássica de advogado, os óculos de tartaruga dos intelectuais. Mas a descontracção com que aceita a vida e o sentido de humor com que encara as dificuldades mais nos levariam a imaginá-lo de flor atrás da orelha e cabelo comprido. No entanto, o que se afigura com menor importância aqui é a imagem. O que se sente muito presente são os valores fortes e as certezas a transmitir, se bem que tudo, mas tudo, com muita descontracção.
"Há regras básicas que não podem ser ultrapassadas, mas depois há aquelas que podem e dependem da forma como estamos, ou como correu o dia. É que senão passávamos a vida a martirizarmo-nos uns aos outros!", explica Eduardo.
Entra o Lourenço, 4 anos, livro na mão. "Mããee... coonta". Sobe para o colo de Maria João. "O qu'é isto?". "É um gravador querido!"
Mas então quais é que são as regras? - "Regras?!... Há poucas cá em casa! Isto é mais à 'ciganada'" graceja Eduardo. "Não, agora a sério", compõe-se Maria João, "insisto para que se deitem cedo no período de aulas, que cumpram os seus compromissos, que ajudem a mãe, que passeiem a cadela e, principalmente, que se respeitem uns aos outros. E é claro que têm de aprender a partilhar. Penso que é mesmo das coisas mais positivas que aprendem, a conviver com muita gente. Partilham os quartos e as refeições. O pyrex de empadão ou de massa é para todos e têm de o dividir. Ficam preparados para as dificuldades que possam surgir nas suas vidas".
Então e quais são as regras maleáveis? A resposta de Eduardo é imediata: "a desarrumação. Por vezes dá-me umas ganas e dou um grito: estou farto disto! E naquele bocadinho eles arrumam tudo. Mas no geral não estou muito preocupado com isso. Tem de haver descontracção e ver o que é mais importante", resume.
E quais são as vantagens de ter uma família numerosa? "Olhe, é ter as paredes todas sujas! Eu e aqui o Simão pintámos há um mês o quarto dos mais pequenos, mas neste momento já está cheio de signos!", conta entre gargalhadas. É fácil concluir qual a regra número um, familiar e transmissível: o sentido de humor.
De facto, quem olhe à volta percebe-se que ainda não houve tempo nem dinheiro para uma decoração completa do apartamento. As paredes estão por pintar, as cortinas por arranjar e pequenos montes de brinquedos povoam a sala aqui e ali. Mas há uma televisão, onde o Afonso vai espreitando os desenhos animados, e há um computador onde o Francisco joga. "Temos a casa por arranjar há anos. Mas essa não é a nossa prioridade. Faz-me confusão ver muita gente que não tem um filho antes de ter atingido o topo da carreira, de ter tudo topo de gama", observa Maria João.
A comunhão entre os olhos azuis de Geninha e o sorriso de Eduardo é total. "Se fizermos depender a nossa felicidade dos bens materiais, estamos condenados a ser uns desgraçados. Basta pensar que se houver um terramoto, em que se perca a parte material, passa-se à infelicidade total".
Vida a correr pelo corredores
Entra o Afonso, 6 anos, carrinho na mão por cima da mesa, por cima da mãe... Enquanto Maria João e Eduardo falam há um rumor constante de conversas de crianças entrecortado por um grito de vez em quando ou um choro dos mais pequenos. Há movimento na casa. Há vida a correr pelos corredores. Um calor humano que dispensa aquecedores.
E é isso que dá sentido à existência deste casal. "Não me consigo imaginar a viver de outra maneira, sem ter a casa cheia. Gosto de os sentir à minha volta", explica Maria João enquanto pega ao colo no Lourenço sempre com a mesma calma. "Sabe, uma pessoa aprende a encarar as coisas com muito pouco dramatismo, com muito maior sentido prático. Nós e eles também. Os mais novos são muito mais desembaraçados que os mais velhos. Olhe! Agora, por exemplo, este está com fome, foi ao frigorífico e serviu-se!" Entra o Afonso com uma fatia de salame pendurada entre a mão e a boca. Grita a Maria, 7 meses, sentada dentro do parque, olhos esbugalhados a espreitar através das grades. Maria João não consegue conter o riso. "Acho que a Maria vai pôr-nos a todos num canto!" Apressa-se a pegar-lhe.
Mas então vamos lá ver. Não há desvantagens? "Olhe o Simão diz-lhe já uma!", despacha Eduardo. Entra o Simão, 13 anos: "Pois. Queria ter umas botas novas", diz com ar desconfiado. "Em vez de ter uma peça de roupa nova de dois em dois meses, tem de dois em dois anos", ajuda o pai. "Sim, porque uma família numerosa é uma família que recicla! As roupas passam de uns para os outros", diz Eduardo para o lado em jeito de indirecta para o filho. Até os protestos adolescentes de Simão são vividos com sentido de humor. Mas, "atenção", alerta Maria João, "eu acho que tenho pouco tempo para eles. Chego a casa às 18.00h e são os trabalhos de casa, os banhos, o jantar.
Às vezes ainda dá para uma história, que eles adoram, mas é difícil conseguir um bocadinho para cada um".
Transmitir valores
Para além de trabalhar a tempo inteiro toda a semana, Maria João também trabalha ao sábado de manhã. Claro que gostaria de funcionar em sistema de part-time, mas não pode, precisa do ordenado. Quanto a Eduardo, largaria de bom grado a profissão para ficar a tempo inteiro com os filhos. Para este pai de família o melhor do mundo são mesmo as crianças. E é vê-lo a mudar fraldas e a dar papas. Sábado de manhã ruma ao supermercado. Eduardo já é um ás no controlo do orçamento, porque "Quem gasta cerca de 24 litros de leite por semana, tem de estar atento às promoções". E atento também aos filhos, pois a romaria faz-se com todos. É uma autêntica "matilha" que o segue religiosamente. E percebe-se porquê. Basta ouvir as gargalhadas que lhe saem espontaneamente com cada gesto "da ciganada", basta ver a alegria com que abdica de um carro novo ou de uma viagem.
Não há espaço sequer para almoços de negócios ou com amigos. Todos os dias, à uma da tarde, Eduardo larga o escritório para ir almoçar a casa. "Gosto muito mais de almoçar com eles do que ir para um restaurante qualquer!".
Mas a verdade é que, no meio da descontracção, existe uma consciência aguda da necessidade que as crianças têm de serem acompanhadas. Assim, à hora do almoço pai e rapazes reúnem-se para o almoço e para conversar. É importante saber como está a correr o dia. "Porque senão, sem acompanhamento, as coisas podem complicar-se."
Há que estar certo de uma coisa: "Os grandes valores transmitem-se no dia-a-dia, na vivência com os filhos". Por isso é necessário estar cem por cento disponível. "Até no escritório", asseguram Eduardo e Maria João, "atendemos sempre o telefone, mesmo que seja só para apaziguar uma discussão".
Esforço? "Não é esforço nenhum. Nós escolhemos partilhar a nossa vida". Por isso, desengane-se quem pensar que esta é uma vida de sacrifícios. "De maneira nenhuma", assegura Eduardo, "não vivemos para os filhos. Vivemos com os filhos".
Ao fim do dia
Entram Francisco, 10 anos e Afonso, em pranto, "Uáá! Ò pai! Foi o Ruca, deu-me um murro na barriga!"
São quase nove horas da noite. Amanhã há que levantar cedo. Maria vai ficar em casa com a empregada. Eduardo vai sair com os quatro rapazes, atrasado como de costume. Larga o Lourenço na carrinha, o Simão, o Francisco e o Afonso na escola. Volta para buscar Maria João e partem para o centro de Lisboa. Ao fim do dia, quando a mãe tiver regressado de transportes públicos, já os rapazes terão chegado a casa, que a escola é perto.
Eduardo nunca sabe a que horas se vai conseguir despachar. Se pelas oito, se pelas onze. Mas o almocinho a cinco já ninguém lhe tira. E sábado está quase a chegar.
Passam das nove horas. O jantar está atrasado. Uma profusão de bolachas e fatias de salame passam de mão em mão. Há que encher as barrigas, passear a cadela, deitar cedo, sonhar com as férias, desejar a roupa nova.
Houve bulha ao fim do dia, mas o Lourenço não se importa. Dentro da mão peganhenta, escondidos como um tesouro, estão dois M&M's quase derretidos. Ainda há tempo para uma última pergunta: mas afinal, o que é que acham que se passa com a maior parte dos pais portugueses?
O Simão apressa-se a responder: "São uns chatos!". Gargalhada geral.
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