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6 de Janeiro de 2001 - Correio da Manhã
A importância da família alargada
por MARGARIDA LANCASTRE
Um dos factores essenciais na construção sólida e saudável de uma família, e até da própria personalidade de cada um, passa inevitavelmente pela transmissão de valores. Numa família alargada, isto faz-se mais facilmente.
Joaquim Quintino Aires é psicólogo e director do Instituto de Psicologia Aplicada e Formação. De uma coisa está certo: a constituição do ser humano faz-se de referências históricas, de testemunhos. É por isso essencial que o indivíduo cresça inserido num agregado que lhe passe esses testemunhos, que lhe transmita valores. Daí que irmãos, primos, avós, tios, sejam componentes essenciais ao desenvolvimento saudável de uma criança, "mais que não seja para aliviar as crianças do peso da ansiedade dos pais", explica.
Também é essencial estar consciente da atenção individual que a criança necessita, particularmente da importância do afecto materno que leva ao saudável crescimento interior e que não pode ser substituído pelo afecto de um irmão ou irmã. Por isso, quando o número de filhos é maior, há que evitar que existam falhas a esses níveis.
Ter um filho único é, sem dúvida, "arriscado, porque está muito dependente do funcionamento dos pais e das suas ansiedades", explica Quintino Aires. Para o psicólogo, um número aproximado dos três elementos será o ideal em termos de vivências e capacidade, por parte dos pais, de produzir afecto e atenção. Num agregado com um número muito superior a quatro, há que estar atento para que tudo esteja "na medida certa", salienta. A verdade é que tudo depende dos pais.
A importância dos pais
Há que assegurar que a ideia que se transmite à criança é a devida. Isto é, que "a criança não tem tudo o que quer, porque não pode ter tudo. Esse facto pode levar à inveja e à revolta. A criança deve saber que não tem tudo porque não tem de ter, mesmo que haja a possibilidade, explica o psicólogo. Ou até "mesmo que o irmão tenha".
Este é outro aspecto que Quintino Aires considera essencial: "se um irmão tem determinada coisa em determinada altura da vida, não implica que o outro tenha de ter igual. Existirá outra altura em que será o segundo a ter, porque assim se proporciona. É o caso, por exemplo, dos aniversários". E este é um erro em que muito facilmente se incorre.
Assim, é essencial que todas estas pequenas "frustrações" sejam vividas pela criança, para que a "biologia egoísta" com que o ser humano nasce seja contrariada e não tome proporções muito negativas e até perigosas.
A partilha é um factor essencial no crescimento de um adulto. Para Quintino Aires, mais importante que a vivência com os irmãos dessa evidente necessidade de se abrir ao outro, de se dar ao outro, está o testemunho insubstituível dos pais. Para o psicólogo, são os pais, acima de tudo, quem vão transmitir ao filho a forma de estar na vida, a partilha, o altruísmo, o pensar no outro. O problema está em que à maioria dos pais falta a disponibilidade, a coragem até, de saber educar o filho nas devidas condições.
É importante, segundo o psicólogo, "saber levar a criança a adiar a gratificação". Isto é, que não pode fazer ou ter aquilo que quer naquela altura, que terá de esperar por uma melhor oportunidade. "O exemplo clássico é o chocolate 10 minutos antes do almoço", adianta o especialista. É essencial que os pais saibam dizer-lhe que não em alturas próprias, para que ela saiba lidar com a frustração. Porque é assim que se cresce. Seja num pequeno agregado, seja numa grande família.
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