6 de Janeiro  de 2001 - Correio da Manhã

Associação das Famílias Numerosas 

por MARGARIDA LANCASTRE

Mãe de quatro filhos, licenciada em Direito, assessora no Ministério da Educação, é a vice-presidente da Associação Portuguesa das Famílias Numerosas. Marieta Pinto Fonseca, 53 anos, uma energia invulgar e um espírito contagiante. 

XIS: O que é que a levou a querer ter uma família grande?
Marieta Pinto Fonseca: Sempre quis ter vários filhos. Não porque viesse de uma família numerosa, mas precisamente porque senti falta de ter mais irmãos. Só tenho uma irmã. Achei pouco.


XIS: O que é que defende a Associação de Famílias Numerosas?
M.P.F.: Consideramos a família o eixo crucial para educar na liberdade responsável. É muito bonito dizer que a minha liberdade acaba onde começa a do outro. Até aqui tudo bem, mas isto é tudo só com o intuito de não chocarmos uns com os outros. Há que ter objectivos comuns para, juntos, caminharmos para o bem comum e não individual. Eu quero a minha felicidade mas também a tua. É assim que se cria uma verdadeira comunidade, não individualista. Isto para além do facto de que, embora combatamos o envelhecimento da população, sermos profundamente penalizados a nível fiscal. Por isso temos de defender os nossos interesses.


XIS: Mas numerosa porquê?
M.P.F.: É na linha do meu pensamento anterior que entra também a razão de ser da família numerosa e de serem mais que dois filhos. A partir do terceiro filho cria-se uma sinergia diferente, abre-se ao mundo. Com dois filhos tudo funciona metade/metade, mas com três isso já não é possível. É aí que entra a verdadeira partilha, o abrir-se e pensar no outro, a preparação para a sociedade, para o viver em comunidade.
Porque com mais filhos a preocupação com a educação é muito maior, porque como não podem ter tudo, têm de ser responsáveis. Transmite-se-lhes a pedagogia do esforço - é preciso lutar e trabalhar para ter o que se quer, para merecê-lo.


XIS: Mas afinal há sobrepopulação ou crise demográfica? Não há falta de recursos?
M.P.F.: Tudo isto vem do trauma de uma teoria do crescimento populacional que não levou em consideração a quantidade de epidemias, doenças e desastres ecológicos que surgiriam. Para além de que, neste momento, existe uma crise demográfica no mundo ocidental (Europa e Estados Unidos). O envelhecimento da população, a diminuição dos nascimentos, exige que se tenha mais que dois filhos. Porque dois vão apenas substituir os pais, não vão acrescentar.
A ONU neste momento afirma que cada país vai ter de importar uma quantidade enorme de imigrantes para fazer face à crise demográfica. Quanto aos recursos, queimam-se, nos Estados Unidos e na UE toneladas de alimentos excedentes. Os meios de comunicação é que têm muita responsabilidade na informação que passam.


XIS: Acha que é tarefa fácil ter vários filhos hoje em dia?
M.P.F.: O problema é que as pessoas perderam o sentido de humor, a sabedoria de ultrapassar a chatice da vida. Hoje um filho é uma chatice, é uma despesa, já não há a mais-valia de serem uma riqueza como antigamente. E não há disponibilidade mental para os filhos. Daí nasce o isolamento, a falta de afecto, porque até podem estar todos em casa mas o pai está a ler o jornal, a mãe a fazer a lida, o filho no computador ou na televisão. Cada um sozinho consigo mesmo. Outro dos factores que complicam a vida em família é ter os filhos mais tarde, é mais difícil de os aceitar. A vida já está toda construída sem filhos. E depois tem de se ensinar os pais a ser pais. Isto tem a ver também, precisamente, com a falta de vida em família, com a falta de crianças e idosos. Já não existe um agregado familiar alargado onde se transmitam testemunhos e experiências.


XIS: Mas há falta de tempo, ou não?
M.P.F.: Cada pessoa tem tempo para o que quer. O que é necessário é estabelecer prioridades, perceber o que é mais importante. O problema é que queremos ter tudo. A mim impressiona-me como hoje em dia se fala na solidão dos jovens e mesmo das crianças. Tanto o professor Freitas Gomes, psicólogo, como o professor Daniel Sampaio, psiquiatra, falam nisso. E depois as pessoas ficam muito espantadas com coisas que acontecem, como os casos americanos de jovens e crianças que se matam uns aos outros. A grande falha está na falta de convivência. Não se trata de lhes dar divertimentos, trata-se de conhecer os nossos filhos - como é que são em casa, na escola, com os amigos - porque eles são diferentes em cada local.
É preciso ver que não se conversa nas discotecas, e quando vão para casa também não conversam. É necessário ter a casa aberta aos amigos dos filhos. E estar aberto a eles com total disponibilidade. Mesmo que o tempo seja pouco, o que importa é que esse tempo seja de qualidade.
Acima de tudo, há que transmitir-lhes valores! As raízes familiares, os testemunhos, as vivências. Temos que lhes dar referências, para que não mudem de grupo.


XIS: Há quem diga que famílias numerosas só nas classes mais favorecidas, outros que só nas que não estão informadas. Afinal como é?
M.P.F.: As famílias numerosas existem em todos os estratos sociais, desde os com maiores rendimentos, até aos de menor rendimento. Mas é entre os que se batem com algumas dificuldades que existem mais filhos. E que deixam de ir ao cinema, ou de viajar.
Quanto às famílias de estrato social mais baixo, que se batem com falta de informação e de assistência médica, também lutamos por eles. Temos organizadas visitas para os ajudar e informar.


XIS: Essas convicções relativas à família não estão ligadas com uma determinada formação religiosa, cristã?
M.P.F.: Podem estar, é claro, mas também podem perfeitamente não estar. Penso que qualquer pessoa verdadeiramente interessada e que viva os valores humanos e os próprios direitos humanos, defende exactamente o mesmo. Mas, para além de tudo, estou convencida que para se ser capaz de ultrapassar dificuldades é necessário ter crenças, para saber viver com alegria os aspectos positivos da vida.


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