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2 de Janeiro de 2001 - Diário de
Notícias Quem ensina os jovens a serem pais?
Maria do Céu S. Machado *
Arquivo DN-José Carlos Carvalho
REFLEXÃO. A educação sexual na escola é uma questão premente. Muitos jovens acabam por ser pais cedo de mais
Muito se tem falado sobre educação sexual nas escolas. A lei já existe, discute-se agora quem educa, como e quem é educado. Pretende evitar-se a gravidez na adolescência (o que nem sempre é assim tão mau), as doenças transmitidas sexualmente, as experiências não desejadas. Pretende-se que os jovens aprendam a fazer as suas opções e a ser felizes.
Concordo com tudo. Mas fica uma interrogação. Estes jovens que estamos a proteger amanhã saberão ser pais? Educar um filho? Ensiná-lo a ser feliz? São perguntas de quem, como pediatra, conversa diariamente com muitos jovens pais e mães, inseguros, mal preparados, aflitos se a criança chora, irritados se a criança grita, fora de si se chora ou grita mais de dez minutos no mesmo dia.
As famílias são pequenas e os parentes, mesmo chegados, vivem distantes. Muitos não tiveram contacto com irmãos mais novos nem têm sobrinhos.
Criança, por definição, é um ser bonitinho e rechonchudo, a quem se compra um enxoval de marca e de quem se espera que mame, não tenha cólicas, durma a noite toda e não fique doente (tal como o Nenuco).
Ainda não nasceu e já se vê de corpo inteiro na ecografia, adivinham-se as feições e até se sabe se é menino ou menina. Nessa fase, corresponde mesmo ao bebé ideal: não dá trabalho e não impede que os pais mantenham a sua vida habitual.
Tudo se complica após o nascimento, quando vai para casa. A mãe cheia de angústia ("estarei a fazer tudo bem?") não confia na própria mãe (as avós já não inspiram segurança; será porque substituíram os cabelos grisalhos por madeixas louras e evitam dizer "no meu tempo..."?) e lê/vê os mass media sempre a mostrar situações complicadas.
E o bebé sente a mãe insegura, sem perceber porque é que aquela voz que esperava calma é aguda e metálica, porque é que em vez de se sentir aconchegado ao colo lhe pegam duma forma desajeitada de quem está sob tensão. E chora desesperado. A sua expectativa não é aquela mãe! E a mãe, frustrada, impotente perante o filho inconsolável, telefona ao pediatra, a uma amiga, ao marido, chora, grita: "Vamos para o hospital! Não consigo calá-lo!" A sua expectativa não é aquele bebé!
Estes pais não estão preparados para alterar a sua vida com o nascimento de um filho. A gravidez é programada para depois dos trinta e entretanto vive-se a cultura do eu, do bem-estar individual, do egoísmo extremo.
Os jovens pais querem e gostam daquele filho mas o prazer de abdicar dos pequenos prazeres do dia-a-dia não lhes foi ensinado. A criança é rebocada para o café, para o centro comercial, para as festas, casamentos e baptizados. Há uma semana vi um bebé de seis dias de vida "às compras" no Vasco da Gama no meio de ar condicionado, fumo, barulho, gente constipada.
Num casamento recente encontrei pelo menos meia dúzia de recém-nascidos enquanto os pais (arquitectos) discutiam alegremente o design dos carrinhos de bebé.
Não parece grave? Depende. Constipações na primeira semana podem ser causa de infecção respiratória gravíssima. O tabaco é factor de morte súbita no berço. O barulho e a confusão "enervam", assim como a refeição fora de horas. Imaginem qualquer de nós a ser obrigado a passar, contra vontade, uma tarde num centro comercial!
É nas primeiras semanas de vida que os pais aprendem a olhar para a criança com o respeito que ela merece, aprendem a conhecer se está satisfeita ou irritada e a ter a percepção de que é um ser com personalidade e que o seu bem-estar colide muitas vezes (e assim será ao longo da vida) com os interesses dos pais.
Há quem defenda que na primeira semana de vida não se deve dar chupeta ao bebé para que, ao ouvir o filho a chorar, a mãe tenha de se levantar, olhar, fazer um gesto de carinho e acalmá-lo com a voz, numa palavra, dar-lhe atenção em vez de enfiar a chucha na boca enquanto continua a ler ou a ver televisão.
A comunicação entre pais e criança faz-se através de sons, gestos e contacto corporal muito antes de a criança conhecer as palavras que a expressam. O tom claro da voz, a lentidão da fala, o sorriso e os movimentos suaves das mãos são mais sugestivos do que as próprias palavras.
As frases ao telefone transmitem uma preocupação que parece nada ter a ver com o mal-estar do filho: "Não dormi nada!", "Passei a noite em branco!", "Tenho uma reunião a que não posso faltar!", "Não me vai dizer que não pode ir ao infantário!", "Mas tenho um casamento este fim-de-semana!". Traduzidas à letra significam respectivamente que a criança passou a noite a tossir, ou a vomitar, ou que está com febre e deve ficar em casa.
Parece haver alguma relação neste desajuste entre adulto e criança e os tão discutidos maus tratos.
No hospital onde trabalho, é praticamente diária a entrada de crianças com histórias impensáveis que se traduzem em marcas físicas e não só. Crianças batidas, abusadas, o corpo cheio de nódoas negras, sinais de queimadura de cigarros, arrancamento de couro cabeludo. Crianças infelizes que fingem dormir quando se aproxima um adulto, tal é o pavor de serem molestadas.
E não se pense que só acontece num nível social baixo. Há quatro anos, a Assembleia da República encomendou um estudo, efectuado em vários centros portugueses (hospitais e escolas), e a conclusão foi a de que, em Portugal, estas situações se multiplicam e se detectam em todos os grupos sociais, sejam pais licenciados ou analfabetos.
Num hospital em Londres, um grupo de investigadores nesta área colocou vídeos nos quartos onde estavam internadas crianças suspeitas de maus tratos. O resultado foi assustador: fracturas de braços em directo, tentativa de asfixia com almofada e outras atitudes inacreditáveis por pais que não sabiam que estavam a ser filmados.
Os maus tratos infantis sempre existiram, por isso chorávamos ao ler Charles Dickens ou a Princesinha de Frances Burnett, mas esses eram órfãos, o que explicava toda a trama. E suspirávamos de alívio por termos pai e mãe.
Actualmente são os professores das escolas, as vizinhas do bairro, por vezes a avó, que aparecem no hospital com a criança maltratada. Os pais negam, culpam outros filhos pouco mais velhos, ameaçam quando se fala em tribunal.
E o desajuste é em crescendo. Mais tarde, é frequente o demitir de ser adulto traduzido em desabafo à frente da criança - "Dá comigo em louca", "Se soubesse que ter filhos era isto", "Já te disse que te vendo".
Ou para a criança, mostrando toda a falta de autoridade: "Ouves o que a doutora está a dizer? Se não cumprires, a culpa não é minha..." E a criança pensa, espantada: ser grande será isto?
Mas justiça seja feita. Também há pais, e são muitos, sensatos e justos, que acham que conhecer os filhos não é perda de tempo, que inventam tempos livres, que estimulam cumplicidades, que se zangam e se enervam mas que sabem transmitir o seu enorme afecto. Educação sexual aos jovens? Importante e imprescindível! Mas ensinem-lhes também o que é uma criança, o que lhe faz medo e o que a faz feliz para que finalmente, quando resolverem ser pais, o saibam ser.
* Maria do Céu S. Machado é directora de Pediatria do Hospital Fernando Fonseca e professora de Pediatria da Faculdade de Medicina de Lisboa
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