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Ecclesia - 12 de Janeiro
Encontro da Comunidade de Taizé em Barcelona
Pintasilgo pede aos jovens que lutem pela qualidade
Os 80 mil jovens que estão em Barcelona, convocados pela Comunidade de Taizé, viveram ontem o primeiro dia de reflexão, de debates com peritos internacionais e de orações.
António Marujo/Público
Ao princípio da tarde, o gigantesco recinto que envolve a Praça de Espanha e a feira industrial, em Barcelona, está transformado num parque de merendas. São dezenas de milhares de jovens de todos os países da Europa e de outros continentes - ao todo, 80 países diferentes estão aqui representados. Uma lata de atum, uma maçã, um iogurte, uma sanduíche e uma garrafa de água para cada um. E também, preparado pelo Exército, enormes recipientes de plástico com chá para todos. Alguns pares de voluntários percorrem a área, saco de plástico e luvas calçadas a apanhar o pouco lixo que a multidão produz. Tudo é o mais simples possível, mas tudo é eficaz.
A organização do Encontro Europeu de Jovens tem a ver com a espiritualidade da Comunidade de Taizé, que o propõe. Pequena aldeia situada perto de Cluny (a 100 quilómetros de Lyon, na França), Taizé viu nascer, em 1940, uma experiência única na história de 2000 anos de Cristianismo: ali, monges católicos e protestantes estão unidos na busca do essencial, tentando superar as divisões que, no milénio que amanhã acaba, atravessaram o Cristianismo.
Lentamente, em Barcelona, a multidão vai-se desfazendo no exterior da Feira de Exposições, engrossando os dois grandes pavilhões da época industrial. Lá dentro, há um rumor de fundo, procura-se o chão disponível para sentar, o coro canta preparando o ambiente para a oração. "Confitemini Domino", "Dai graças ao Senhor porque Ele é bom". Não há um momento em que as coisas começam - como não há um final -, tudo vai acontecendo como uma sucessão de inícios. Há grandes panos cor-de-laranja envolvendo as colunas de ferro, alguns ícones de pintura contemporânea - a ceia de Cristo, a transfiguração, Cristo, senhor do Universo - e uma profusão de pequenas velas de breves cintilações.
Os monges, de veste branca, vão chegando, sentam-se à frente, junto dos ícones. Canta-se, sempre. "A alma que anda no amor nem cansa nem se cansa." Cânticos, orações, textos bíblicos, sempre em frases curtas, tudo é cantado, rezado, lido em diferentes línguas. Há polacos a cantar em catalão, há espanhóis cantando inglês, italianos, portugueses, romenos, escandinavos, russos expressando-se. A universalidade que o Cristianismo apregoa deve ter algo a ver com isto.
No final da oração - duas vezes por dia, às 12h30 e às 19h00 (menos uma hora em Lisboa) -, um dos monges faz uma pequena reflexão a partir da carta que, anteontem, o irmão Roger, prior de Taizé, dirigiu aos 80 mil participantes (ver caixa). "É preciso distinguir entre a vontade de Deus e o destino. A vontade de Deus não é um programa. Deus fala, faz-nos perguntas e espera uma resposta, quer que assumamos o nosso papel na realização deste plano."
A comida e a água potável
Da mesma importância de cada um se envolver no meio em que vive, embora por outras palavras, falou Maria de Lourdes Pintasilgo aos jovens, num dos debates de ontem à tarde. "A eternidade é uma sucessão de começos, temos que nos entregar ao tempo que nos foi dado", disse a antiga primeira-ministra portuguesa, citando Teilhard de Chardin. Falando em inglês perante um auditório composto essencialmente por jovens russos, ingleses, espanhóis e portugueses, Pintasilgo desenvolveu o tema "Cuidar o futuro", título do relatório da Comissão Independente para a População e Qualidade de Vida, a que presidiu no âmbito das Nações Unidas.
"Cuidar do futuro é caminhar para uma sociedade em que a qualidade de vida é acessível para todos", afirmou. Uma sociedade em que, como dizia a antiga primeira-ministra finlandesa, Gro Harlem Brotland, se dê prioridade ao "ter cada vez melhor" em vez do "ter cada vez mais quantidade". E em que a qualidade se mede não por quaisquer razões românticas, mas por índices de desenvolvimento aprovados internacionalmente.
O que tem tradução em coisas concretas: na recente cimeira da União Europeia em Nice, foi decidido repartir os votos em função da população de cada país, "o que é manifestamente contra a igualdade entre as nações"; muitos americanos descobriram recentemente que "o seu voto, afinal, não conta"; o exacerbamento dos nacionalismos étnicos como fundamentalismos contraria o cuidado necessário dos povos uns para com os outros; e as violações à natureza impedem-nos a todos de ter, hoje, "boa comida e água potável".
Enfim, "é preciso mudar a organização da sociedade", diz Maria de Lourdes Pintasilgo. E cuidar do futuro é cuidar "da natureza, das pessoas, dos povos e do Mundo inteiro".
(António Marujo, in "O Público" de 30/12/2000)
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