Expresso - 27 de Janeiro

Polícias em escolas de crianças que nunca conheceram o colo 

Ana Baião 

A chegada da subchefe Anabela Simões a uma escola afasta os indesejáveis e atrai os alunos que lhe comunicam os problemas

AMADORA, 8h30 de quarta-feira, dia 24 de Janeiro. O amanhecer frio e enevoado não impede a subchefe Anabela Simões de se apresentar aprumada em frente da esquadra nº 63 da Damaia, pronta para iniciar um dia de trabalho no âmbito do programa Escola Segura - um projecto conjunto dos Ministérios da Educação e da Administração Interna. 

Cada jornada é diferente da anterior, mas Anabela Simões sabe o que a espera. O carro-patrulha está a postos, o rádio-transmissor está ligado, o telemóvel operacional, e o «briefing» já foi feito com o comando da divisão. As aulas nas 11 escolas que têm a missão de patrulhar estão a começar. O primeiro estabelecimento que visita recebe apenas alunos do segundo ciclo do ensino básico. 

Na Pedro Ourém da Cunha todos a conhecem. «Estás boa, amor?», diz ela a uma das raparigas que entram na escola. Os seus olhos percorrem rapidamente o recinto. Sabe, por experiência própria, que a entrada e a saída das aulas são os períodos mais problemáticos do dia. 

«Os alunos estão mais desprotegidos. Alguns vêm sozinhos para a escola. São, por isso, um alvo fácil para um grupo de dois ou três delinquentes», diz Anabela Simões. No entanto, «as horas mais dramáticas vivem-se no final do dia. Isto porque os adolescentes mais problemáticos passam a manhã a recuperar as energias gastas nos distúrbios com que se ocuparam durante a noite». 

Crescer no vazio

Depois de observar o exterior, dirige-se ao vigilante que se encontra no portão. Entra no recinto e vai ao conselho executivo para uma conversa com os responsáveis da escola. 

Uma professora chama aos seus pequenos «crianças sem colo». Diz que «crescem vazias de amor, de regras, de referências, de família, de autoridade». Aqui radicam algumas das causas da agressividade. «Os valores alteraram-se, hoje o que conta são umas sapatilhas Nike, um telemóvel de última geração ou um carro do último modelo. O papel do professor é desvalorizado e o papel da escola não lhes merece muito significado. O herói de muitas destas crianças é o traficante, que num dia ganha mais do que um professor num mês», acrescenta.

É tempo de passar pela Escola Secundária Azevedo Neves, também no concelho da Amadora. São bem visíveis as câmaras de vídeo que registam todos os movimentos. Lá dentro tentam conviver jovens de várias etnias e origens.

A subchefe Anabela já mediou conflitos, já foi buscar alunos a casa pelo facto de se ausentarem das aulas e, frequentemente, desenvolve acções de sensibilização para que os jovens não levem para a escola muito dinheiro e evitem o uso do telemóvel, se não o quiserem perder. 

A agressão como normalidade

Nas quatro horas da ronda da manhã o carro não foi chamado de urgência para qualquer ocorrência dentro ou fora da escola. «Este não é um dia normal». 

Na escola Almeida Garrett as instalações estão protegidas por alarme e ligadas a uma empresa privada. No interior passeia um segurança destacado pelo Ministério da Educação, que faz a ronda pelo recinto. Sabe de histórias que prefere não contar e opta por não se referir aos assaltos ou às brigas a que os alunos se dedicam nos intervalos das aulas. 

A entrada na escola é precedida pela necessidade de separar dois miúdos que lutam. São chamados à razão e dizem que estão a brincar. «Muitas crianças não têm noção da força que empregam. Tudo para elas se resolve à pancada. É assim lá em casa». 

A EB 2,3 Delfim Guimarães recebe os «indesejáveis» das escolas das redondezas. É provisória desde que foi construída, já lá vão mais de 20 anos. A chegada do carro da polícia afasta grupos de jovens que se aglomeravam junto do gradeamento da escola. 

As rampas em terra batida que a rodeiam e os túneis de cimento são caminhos fáceis para os jovens escaparem. Também são caminhos perigosos. A falta de iluminação e os pequenos crimes que ali estão à espreita levam os professores a aconselharem os alunos a deslocarem-se em grupo. 

A chamada por rádio para acorrer a um assalto leva a agente à Secundária da Amadora. Os autores já não estavam no local, é feita uma ronda pelos arredores, mas qualquer prédio em construção, passagem aérea ou túnel serve de escapatória aos autores do delito. Começa a chegar a hora das presenças mais indesejáveis junto da escola. 

A subchefe aumenta a vigilância. Tenta apagar todos os fogos, sabe que nas suas costas se vende droga. Já fez várias apreensões de estupefacientes e as armas brancas que recolheu davam para fazer uma feira. «Mas hoje não aconteceu nada de especial». As crianças começam a abandonar o recinto e os problemas voltam para casa.
 

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