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Expresso - 27 de Janeiro
Um círculo vicioso
CRIANÇAS e jovens enchem cada vez mais os serviços psiquiátricos. Hospitais civis e consultórios privados não têm mãos a medir para dar resposta aos pedidos, na maioria feitos pelos pais, mas também pelos tribunais.
A violência e a depressão costumam ser as principais queixas que o médico ouve. «A razão para o aumento do recurso aos psiquiatras tem a ver com o facto de haver cada vez mais jovens soltos, devido à desagregação das famílias», explica Simões Ferreira, da Clínica da Juventude, em Lisboa, que recebe jovens entre os 13 e os 18 anos.
Mas nas zonas onde vivem as minorias étnicas, social e economicamente desfavorecidas, os comportamentos violentos adquirem as formas de que «se tem falado e visto nos meios de comunicação. Nessas zonas é raro encontrar uma família tradicional», continua o psiquiatra Simões Ferreira.
O desenraizamento das populações urbanas, a falta de tempo e até a dificuldade em aprender português por parte de alguns adolescentes são factores que ajudam a compreender o fenómeno da violência - diz o sociólogo João Sebastião, representante de Portugal num grupo de trabalho de luta contra a violência nas escolas da União Europeia.
A pouca escolaridade de muitos pais é outro entrave à inserção das crianças na escola. Para João Sebastião, os encarregados de educação «não conseguem ver nos estudos ou no bom comportamento» a garantia de um futuro com mais perspectivas.
Famílias desfeitas
Também Pedro Strecht, psiquiatra de crianças e de jovens, aponta o rompimento da família clássica como um dos principais elementos geradores de violência.
No entanto, mesmo nos casos em que o pai e a mãe vivem em conjunto com os filhos, as crianças e os jovens crescem sozinhos, sem regras, sem amor, sem sanções.
«Uma criança aceita muito melhor uma repreensão de quem lhe dá amor do que de um desconhecido. Mas agora cada mãe e cada pai não têm certezas quanto à atitude que hão-de tomar em relação ao mau comportamento do filho. Antigamente havia normas, os pais sabiam quando proibir», explica Simões Ferreira.
Pedro Strecht salienta que para muitos miúdos os gritos e a violência resolvem os problemas porque é aquela a atitude que observam em casa como receita para os conflitos.
Paulo Sucena, da Fenprof, condena a psicologia dominante, segundo a qual as crianças não podem ser contrariadas. «Crescem a pensar que têm todos os direitos, mas deveres, nenhuns».
Já o psiquiatra Daniel Sampaio afirma que os jovens não têm a noção do bem e do mal. «A falta de valores, de regras, a sensação de que tudo é possível, de que se pode ter tudo nem que seja pela via ilícita» contribuem para os comportamentos violentos, diz Sampaio.
O mal da televisão
Nos EUA, muitos estudos clínicos confirmam a ideia, cada vez mais aceite pela sociedade, de que existe uma relação directa entre a exposição repetida à violência e os actos violentos dos jovens.
«Muitos desenhos animados para crianças e jovens transmitem essa violência. Os telejornais que entram pelas casas adentro só dão imagens negativas do mundo: catástrofes, guerras, assassinatos. As crianças interiorizam que tudo é risco, tudo é uma ameaça», diz Simões Ferreira.
Pedro Strecht, que partilha da ideia da influência negativa da televisão no processo de crescimento, vai mais longe dizendo que os heróis de hoje «morrem e voltam a viver dúzias de vezes. A violência ficcional é real nas cabeças imaturas», alerta.
A violência existe em cada um de nós, explica Simões Ferreira, tentando deixar a imagem de que há soluções. «Se ela for integrada em acções positivas, em coisas boas, o resultado opõe-se à destruição».
C.S.S./M.C.
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