|
Expresso - 27 de Janeiro
Franceses voltam às boas maneiras
I. Pavlovsky/Sigma/ADS
Escolas francesas: pais enfrentam multas e prisão, mas também têm apoio
EM FRANÇA, onde o regresso às boas maneiras é política oficial, os pais de crianças e de jovens delinquentes podem ser condenados a penas até dois anos de prisão e seis mil contos de multa se for dado como provado que não cumpriram as suas obrigações em matéria de boa educação e de transmissão das regras da vida em sociedade aos filhos. Mas alguns magistrados e psicólogos acham a lei demasiado rigorosa, apesar da dura realidade da violência juvenil.
Considerando que muitos dos pais já foram criados com problemas e deficiências educacionais nas desumanas cidades-dormitório das periferias das grandes cidades, François Feltz, procurador da República em Poitiers, lançou estágios para ajudar os pais que não conseguem lidar com os filhos delinquentes. «A nossa filosofia é informar e formar antes de sancionar», disse o procurador. «Nas questões de delinquência juvenil, os pais são muito mais vezes ultrapassados pelos acontecimentos do que culpados e por isso tentamos ajudá-los a romper o isolamento e a impotência em que caíram», acrescentou Gilles Michaud, delegado encarregado dos menores no Ministério Público (MP) local.
Os «estágios de apoio aos pais» começaram no início do ano, com cerca de uma dezena de chefes de família e casais - todos voluntários - e a procura tem aumentado. «Com o apoio de psiquiatras, psicólogos, professores e polícias, pretendemos voltar a dar-lhes confiança para voltarem a falar com os filhos e gerirem da melhor forma a situação», explicou Michaud. Os representantes do Ministério Público (MP) francês nesta cidade do Sul da França criticam algumas condenações recentes de pais nos tribunais franceses.
«Diz bom dia à senhora!»
A experiência de Poitiers visa responder ao problema da delinquência juvenil que, nas escolas francesas, se traduz em cerca de 250 mil agressões por trimestre. Nas periferias das grandes cidades, os incidentes com jovens são ainda mais graves e acontecem todos os dias, atingindo em casos extremos mortos, incêndios de automóveis e batalhas campais entre «gangs».
A violência transformou-se num drama terrível em França e levou o ministro da Educação, Jack Lang, a lançar um programa de educação cívica de base nas escolas. Com este método, as autoridades pretendem colmatar as lacunas da aprendizagem das regras elementares da vida social. As crianças francesas são agora ensinadas a saudar as pessoas, a dizer obrigado e a pedir desculpa.
Trata-se do regresso do ensino das boas maneiras e, logo no jardim-escola, elas são obrigadas a dizer bom dia a toda a gente. «Quando enviamos um aluno a pedir qualquer coisa à sala do lado lembramos-lhe que deve primeiro saudar e pedir desculpa e, depois, agradecer», explicou Michel Gaultier, director de uma escola numa periferia considerada difícil. Os professores devem falar constantemente em palavras como «respeito», e, sempre que, acompanhados de um aluno, se cruzem com uma senhora idosa, devem dizer-lhe: «Diz bom dia à senhora!»
Os centros de assistência social foram igualmente reforçados nas periferias das grandes cidades mas na maioria não conseguem controlar as coisas depois do cair da noite. Os erros cometidos nos anos 60 com a criação de verdadeiras cidades-guetos nos arredores das cidades estão agora a pagar-se caro. Em muitos locais nem sequer a polícia consegue entrar, a não ser com homens fortemente armados.
O Governo francês, que ainda não conseguiu encontrar alternativas para os guetos, alargou entretanto o ensino das boas maneiras aos bairros difíceis e mesmo os grupos de «rap» estão a ser sensibilizados para introduzirem a palavra mágica «respeito» nas letras das canções.
A iniciativa do Ministério da Educação sobre as boas maneiras também visa objectivos políticos. Além da preocupação com as questões da segurança, 69% dos franceses consideram, hoje, que as boas maneiras são um dos valores mais importantes a transmitir às novas gerações.
No livro de reclamações da RATP, que gere a rede do metropolitano da capital francesa, os utentes sublinham a mesma frase: «Queremos regras para enquadrar os comportamentos nos lugares públicos». Com o regresso da aprendizagem dos valores do passado, a associação France Courtoisie, que conta dois mil associados, pretende lançar brevemente uma jornada nacional das boas maneiras.
DANIEL RIBEIRO, correspondente em Paris
[anterior] |