Expresso - 27 de Janeiro

Britânicos educados por vídeo 

VIJAY Singh, estudante de 13 anos na cidade de Manchester, escreveu em 1997 no seu diário: «Segunda-feira: lanche e dinheiro gamados à paulada. Terça: bucha, chinês e paneleiro. Quarta: Uniforme retalhado à faca. Quinta: sangue a jorros do nariz. Sexta: nada. Sábado: Liberdade». Sábado fora o dia em que o estudante se enforcara em casa com um lenço de seda. 

Um vídeo a lembrar esta e outras tragédias semelhantes está presentemente a ser distribuído em 25 mil escolas secundárias de Inglaterra e do País de Gales na sequência das últimas directivas do Ministério da Educação sobre o combate à violência estudantil. O pacote apela aos professores que colaborem mais estreitamente com a polícia no controlo e prevenção de actos de violência perpetrados fora do recinto escolar.

Anunciadas em Dezembro no rescaldo do homicídio de Damilola Taylor, uma criança nigeriana de 10 anos que uma semana após se ter queixado de intimidação racista por parte dos colegas fora esfaqueada a caminho de um curso extracurricular, as medidas incluem ainda a introdução no currículo primário e secundário de «lições de cidadania».

Mas esta última tentativa governamental de colmatar uma tendência alarmante nas escolas do Reino Unido (um milhão de vítimas anualmente) foi severamente criticada por parte dos professores. Daniella Paterson, secretária geral da Associação britânica de Directores Escolares, considerou ao EXPRESSO ser «injusto que um Governo espere que as escolas sejam responsabilizadas por problemas derivados de casa». A professora acrescentou que a introdução de «lições de cidadania» «está apenas a sobrecarregar um currículo já de si a rebentar pelas costuras».

A Lei do Ensino, sujeita a revisão parlamentar depois da vitória trabalhista em 1997, passou desde 1998 a incluir um parágrafo a comprometer responsáveis escolares a «fazerem tudo ao seu alcance para prevenir e controlar todas as formas de intimidação e violência entre alunos». Mas desde então os casos de violência têm aumentado, em média, 12,5% anualmente, segundo Graham Goldsmith, director-adjunto da Childline, uma linha telefónica de apoio a crianças em crise.

No início deste mês, um relatório da Universidade de Oxford revelou que mais de metade dos estudantes britânicos entre os 13 e os 19 anos foram sujeitos a intimidação por parte dos colegas de escola. Destes, 29% foram vítimas de actos graves de violência. A partir de uma amostra de sete mil inquiridos, a universidade alertou ainda que 10% das vítimas chegara a contemplar o suicídio como «a única saída viável». Outros (2,5%) optaram pela violência numa tentativa desesperada de lidarem com a situação.

Três dias antes da publicação do estudo, o Governo investira 55,3 milhões de contos para promover esquemas de prevenção de violência estudantil. O pacote inclui projectos de responsabilização parental - são realizadas reuniões periódicas com os pais, de modo a envolvê-los no problema - e a criação de unidades escolares especialmente votadas ao ensino de alunos problemáticos. Neste ponto, está já a funcionar em York uma unidade-piloto, na qual os alunos com as situações mais graves têm ao seu dispor, em exclusivo, um professor.

MARINA TADEU, correspondente em Londres
 

[anterior]