Diário de Notícias - 14 de JaneiroPeritos
Miguel Monjardino
Numa passagem por Portugal em 1993, Helmut Schmidt, antigo chanceler da
República Federal da Alemanha, fez uma confissão surpreendente. "Tenho que
vos prevenir de uma coisa", disse o experiente Schmidt. "Vão ouvir um
homem que durante a maior parte da sua vida foi político - e essa é uma
perigosa classe de seres humanos. Eles falam de coisas que só vão perceber
dois dias depois e chegam mesmo a tomar decisões sobre coisas que só
chegam a perceber uma semana depois. Vão também ouvir uma pessoa que é
actualmente autor, ou jornalista, ou uma coisa assim, que faz também parte
da mesma classe de homens. Tenham muito cuidado quando estão a ouvir
políticos e jornalistas. E, acima de tudo, sempre fui, toda a minha vida,
economista - e estes, então, são os mais perigosos de todos. A suprema
mentira com que se podem deparar nas vossas vidas é a mentira estatística;
e a mentira estatística é normalmente elaborada por economistas."
As dúvidas de Schmidt em relação às capacidades, preparação e
conhecimentos de muitos políticos, jornalistas e economistas coincidem com
o fenomenal crescimento do volume e velocidade na difusão de informação
politicamente significativa e com o aumento da importância da ciência e
tecnologia nas sociedades pós-industriais. Apoiados por instituições
desenhadas para responder às necessidades e expectativas do século XIX e
onde impera a fricção, a lentidão, o corporativismo e a obstrução
burocrática, os decisores políticos têm cada vez mais dificuldade em
governar. Isto ajuda a explicar a crescente importância e visibilidade da
nova e influente classe dos peritos, analistas e comentadores no dia-a-dia
nacional.
Correndo o risco de desiludir muitos portugueses e de ofender os donos
de algumas picaretas verbais e canetas pesadas, convém perguntar se, para
além de animarem os nossos dias, os peritos, analistas e comentadores são
realmente melhores do que os infelizes políticos, jornalistas e
economistas. Afinal de contas, o que não falta neste mundo são previsões
de peritos que se vieram a revelar completamente erradas. O livro de
Christopher Cerf e Victor Navasky, The experts speak (1984), inclui alguns
exemplos famosos em diversas áreas:
"O homem não voará nos próximos 50 anos." Wilbur Wright para o seu
irmão Orville, 1901;
"Não consigo imaginar nenhuma circunstância que levasse um navio a
afundar-se. A construção naval moderna ultrapassou este problema."
Comandante Edward J. Smith, White Start Line, futuro comandante do Titanic,
1906;
"Mas quem é que quer ouvir os actores falarem?" Henry M. Warner,
presidente da Warner Brother Pictures, c. 1927;
"Penso que existe um mercado mundial para cerca de cinco computadores."
Thomas J. Watson, presidente da IBM, 1943;
"Com cerca de 50 modelos de carros já à venda aqui não é provável que a
indústria automóvel japonesa consiga conquistar para si uma fatia grande
do mercado americano." Business Week, 2 de Agosto de 1968;
"Não existem razões para que uma pessoa tenha um computador em casa."
Ken Olson, presidente, Digital Equipment Corporation, 1977;
"Não se deixem enganar, esta arma não mudará absolutamente nada."
Dir.-geral de Infantaria, minimizando a importância da metralhadora
perante membros do Parlamento Francês, 1910;
"É altamente improvável que um avião, ou uma esquadrilha de aviões,
possa alguma vez afundar vasos de guerra em condições de combate."
Franklin D. Roosevelt, subsecretário da Marinha dos EUA, 1922;
"Independentemente do que venha a acontecer, a Marinha dos Estados
Unidos não vai ser apanhada a dormir." Frank Knox, secretário da Marinha,
4 Dezembro de 1941, pouco antes do ataque japonês contra Pearl Harbor;
"Isto é a coisa mais estúpida que nós já fizemos. (...) A bomba não vai
explodir e eu falo como perito em explosivos." Almirante William D. Leahy
e o seu comentário ao presidente Truman sobre a falta de resultados
práticos do projecto americano da bomba atómica, 1945;
"Eles não conseguiam acertar num elefante a esta dist..." Últimas
palavras do gen. John B. Sedgwick (Union Army) durante a Batalha de
Spotsylvania, 1864.
Chegados aqui, os leitores deste jornal (e todos aqueles que se
aproveitam da Internet para ler o jornal gratuitamente) podem perguntar:
se não podemos confiar nos políticos, jornalistas, economistas e devemos
ter muito cuidado com o que os peritos nos dizem, em quem é que podemos
realmente confiar? Confesso que não tenho uma resposta satisfatória para
esta pergunta. Mas tenho uma sugestão. Numa carta escrita em 1877, Lord
Salisbury observou "que nenhuma lição parece ter sido tão profundamente
inculcada pela experiência da vida como a de que nunca se deve confiar num
perito. A acreditar nos médicos, nada é saudável; a acreditar nos
teólogos, nada é inocente; a acreditar nos soldados, nada está seguro.
Todos eles exigem ter o seu forte vinho diluído por uma grande dose de
senso comum insípido."