Expresso - 26 de Janeiro

Quanto custa um aluno?

João Carlos Espada

«Quanto custa um aluno numa escola do Estado e quanto custa numa escola particular com contrato de associação? Seria interessante conhecer estes dados. Isso permitiria avaliar o custo de passar a financiar as famílias, em vez das escolas: seria mais caro para o contribuinte? Ou mais barato?»

NO SÁBADO passado fui convidado a participar numa reunião que poderíamos classificar de improvável. Foi na localidade de Calvão, concelho de Vagos, e reuniu mais de três centenas de pessoas durante o dia inteiro. Vinham de vários pontos do país, sobretudo do Norte e do Centro, e tinham origem em mais de 50 escolas do ensino básico e secundário. A iniciativa era, em bom rigor, espontânea.

Tratava-se do «Movimento Cívico de Pais e Encarregados de Educação» e do seu III Encontro - de cujos antecessores, eu, como por certo a maior parte dos que me lêem, nunca tinha ouvido falar. A verdade, fiquei a saber, é que o primeiro encontro se realizara a 27 de Julho do ano passado, e reunira cerca de 800 pessoas numa localidade próxima, Sto. André de Vagos. Aí fora aprovada uma carta ao ministro da Educação, reclamando liberdade para as famílias escolherem a educação dos seus filhos.

A 7 de Setembro, novo encontro, na mesma localidade, reuniu 1400 pessoas e aprovou uma carta semelhante ao Presidente da República. A 14 de Setembro, 5629 cartas do mesmo teor, assinadas pessoalmente, eram entregues no Palácio de Belém. Após audiência com o assessor do pelouro, o movimento viria a receber uma carta do Presidente da República garantindo a sua atenção ao assunto.

Qual é o assunto? Basicamente, o movimento partiu de uma reacção espontânea a um problema local. A escola de Calvão é uma escola particular com contrato de associação com o Estado: os seus alunos não pagam propinas, apesar de a escola ser particular, e o Estado financia a escola de acordo com o número de alunos que a frequentam. Dado que os pais gostam da escola, mais e mais alunos a procuram: cerca de 1200 no horário diurno e mais 200 no horário nocturno.

O êxito, todavia, parece não ser bem visto pela DREC, a Direcção Regional de Educação do Centro. Novos constrangimentos têm sido colocados à expansão da escola e abertura de novas turmas - que são necessárias para responder à procura livre das famílias. Segundo parece, a DREC receia que o sucesso da escola de Calvão ameace as escolas estatais das redondezas, menos preferidas pelas famílias.

Curiosamente, porém, o movimento cívico de Vagos não pretende apenas mais apoios do Estado para a escola de Calvão. Reclama o reconhecimento da liberdade de escolha do ensino pelas famílias. Admite que várias soluções técnicas sejam possíveis para assegurar esta liberdade. O «cheque educação» - através do qual o Estado financia as famílias e estas escolhem a escola, estatal ou particular, da sua preferência - é uma delas.

Um ponto adicional muito interessante, que foi insistentemente referido no encontro de Calvão, talvez ajude à discussão pública deste problema: qual é o custo por aluno nas escolas? Quanto custa um aluno numa escola do Estado e quanto custa numa escola particular com contrato de associação? Seria interessante conhecer estes dados. Isso permitiria avaliar o custo de passar a financiar as famílias, em vez das escolas: seria mais caro para o contribuinte? Ou mais barato?

Já assistimos ao segredo estatal sobre o resultado das escolas nos exames nacionais - em boa hora rompido pelo Ministério da Educação em Agosto passado. Chegou a altura de romper o segredo sobre os custos. Os contribuintes têm o direito de saber como é gasto o seu dinheiro.

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