Público - 21 de Janeiro

Pai Natal, Quero Ser Televisão

Por DULCE NETO

Nesses dia primeiros de Dezembro a professora pedira aos alunos do 3º ano do 1º ciclo do básico (o nome antigo é 3ª classe) que escrevessem sobre o seu futuro. Um eufemismo para a pergunta clássica "o-que-queres-ser-quando-fores-grande?". Houve um menino que falou do seu presente, copiando um texto de um autor desconhecido.

Não sei porquê, não consigo deixar de pensar na cópia que a professora me mostrou há não muitos dias quando leio o livro "Famílias e Maus Tratos às Crianças em Portugal". É o relatório final de um trabalho encomendado pela Assembleia da República ao Centro de Estudos Judiciários e cientificamente executado no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Da autoria de Ana Nunes de Almeida, Isabel Margarida André e Helena Nunes de Almeida, passou praticamente despercebido pelos meios de comunicação social. Talvez porque não é um estudo de prevalência, não diz quantas crianças são maltratadas comparativamente a x anos atrás. Diz coisas como:

- "os adultos responsáveis por crianças vítimas de abuso ou negligência distribuem-se por todos os níveis de escolaridade (desde o ensino superior à ausência absoluta de competências escolares)". Pertencem "a um variado leque de categorias profissionais de activos; no entanto, a larguíssima maioria encontra-se nos segmentos menos qualificados do mercado de emprego". Os autores do "abuso emocional com agressão física" têm "um lugar menos destacado nos níveis mais baixos de instrução: a sua incidência tende a apontar para os graus acima do ensino primário", abrangendo mesmo o superior, tal como o abandono definitivo da criança sucede em franjas escolarizadas da população. Nestes dois tipos de maus tratos, os agressores (tanto homens como mulheres) têm ocupações mais próximas do topo da hierarquia sócio-profissional, provavelmente exercidas em meio urbano (como técnico superior/médio);

- em metade destas famílias residem alcoólicos, em 16 por cento toxicodependentes e em 11 por cento vivem indivíduos com cadastro criminal;

- o mau trato afecta crianças de todas as idades; no entanto, estão principalmente representadas as mais pequenas: seis por cento têm menos de um mês, quase 1/4 têm menos de um ano;

- 91 por cento das crianças são de raça branca;

- uma parcela significativa foi fruto de uma gravidez precoce ou de uma gravidez tardia;

- a escola ocupa um lugar marginal no quotidiano destas crianças: 1/3 falta regularmente, 1/4 chega sistematicamente atrasada às aulas, outro terço já repetiu algum ano. "À débil relação com a escola" junta-se um impressionante "afastamento dos serviços do sistema de saúde": quase 60 por cento não faz vigilância médica regular;

- "a maioria das crianças vítimas de abuso ou negligência vive em famílias nucleares, mas é expressivo o peso de outros arranjos, como o das famílias monoparentais e o das famílias recompostas";

- 1/4 das crianças ficou com sequelas físicas irreversíveis, 53 por cento com sequelas psicológicas;

- o pai biológico, a mãe ou ambos estão directamente envolvidos em cerca de 65 por cento destas situações;

Este estudo mostra-nos muitas coisas, sem esquecer que estes dramas, muitas vezes vividos em silêncio, surgem nas famílias mais insuspeitas. Mostra-nos, por exemplo, como não basta o instinto para se ser pai/mãe, embora argumentando de uma forma estranha:

"Dado o rápido decréscimo da fecundidade em Portugal nas últimas décadas, uma parcela crescente dos adultos actualmente responsáveis por crianças viveram em agregados familiares em que não existiam outras crianças: desconhecem, com frequência, as rotinas e os riscos associados à infância. Essa falta de preparação para a parentalidade (que não foi compensada por outros modos de formação), associada à prevalência de muitos nascimentos indesejados, constitui um factor de potenciação dos maus tratos às crianças, especialmente no campo das negligências."

Serão assim tão significativos os casos de filhos únicos?

Nas 25 modalidades do mau trato, há de tudo: desde o abuso sexual ou/e emocional à violação, fome, clausura (presa em caixote, amarrada à cama; dentro de um gavetão, encerrada em quarto escuro/WC, deitada na cama com os estores fechados todo o dia, etc.), à intoxicação intencional, à prostituição, à mendicidade; desde a agressão física (queimada com cigarro, atirada do 2º andar, orelha torcida ou mordida, pisada, espancada, agredida com faca, cinto, chicote, pau, mangueira, ripa de madeira, etc.) e a sobrecarga de trabalho ao abandono, a ser objecto de venda, à falta de afecto...

O que tem o menino do 1º ciclo a ver com tudo isto? Diz assim a cópia:

"Pai Natal, esta noite peço-te algo especial... Transforma-me numa televisão. Queria ocupar o seu lugar. Queria viver o que a televisão de minha casa vive. Queria ter um quarto especial só para mim, reunir todos os membros da minha família em meu redor. Ser levado a sério quando falo. Poder ser o centro das atenções, que todos querem escutar sem interromper nem questionar. Queria sentir o cuidado especial que recebe a televisão quando algo não funciona...

Ter a companhia do meu pai quando chega a casa, mesmo que ele esteja cansado do trabalho. E que a minha mãe me procure quando estiver triste e aborrecida, em vez de ignorar-me. E ainda que os meus irmãos se zanguem para estar comigo... e que possa divertir a todos mesmo que eles não digam nada. Queria viver a sensação de que deixassem tudo para passarem alguns momentos ao meu lado.

Não te peço muito, só o que qualquer televisão vive..."  

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