Público - 26 de Janeiro

Quem nos Acode?
Por SANTANA CASTILHO

Não resisto. A situação, particular, é paradigma de uma geral que conheço. A revista é séria e o articulista também. Merecem-me crédito e por isso os cito, com a devida vénia. Refiro-me à "Visão" de 17 a 23 de Janeiro e à pena de Pedro Norton, sob a epígrafe "Paixão pela educação". Segundo o autor, as três perguntas que passo a transcrever integraram um teste apresentado numa escola superior de educação a uma professora inscrita num curso de complemento de habilitações (professores bacharéis e já em exercício de docência, em demanda de uma licenciatura):

1ª pergunta - "Numa época de canhestros, sistemáticos e fragmentários dogmatismos, labilismos, labialismos, turismos culturais, pragmatismos, cepticismos, determinismos, fatalismos, autismos, narcisismos, parolismos... - mais ou menos camuflados por dinâmicas endógenas e exógenas - um relance, embora perfunctório, sobre a ossatura programática da Disciplina, permite afigurar-se razoável, liminarmente, a susceptibilidade de desfibrá-la, entre outras, nas seguintes dicotomias axiológicas mediáticas multifacetáveis, confinantes, congruentes, sinalagmáticas..., a entrecruzarem-se, transumirem-se, transubstanciarem-se, transversalizarem-se, etc., v.g. Educação-Ética; Cultura-Civilização; Valores-Referências. Sem irrelevar o subjacente, atípico e ágrafo património - genético, material e espiritual - a montante e a jusante do aluno, teça um comentário sinóptico (corroborante ou repudiante), ancorado em dimensão axiológica e argumentos, empíricos ou especulativos, minimamente válidos."

2ª pergunta - Causalizando os respectivos objectivantes, o maior ou menor sucesso intelectivo-educacional materializa-se em facultar ao Homem-Aluno uma plena e interactiva adaptação ao meio, preconizando a sua vivência numa sociedade virtual que ainda não existe. Sufraga ou impugna? Justifique."

3ª pergunta - "No acervo do 'mapa-mundi' noosférico (habitat cultural dos valores, sem intuitos exaustivos), trace a noção génese, características, mudança, hierarquia, taxinomia, teleologia, filosofia, peregrinação, utopia, protestade e heurística axiológicas."

Quem nos acode? Aonde será preciso chegar para que alguém tenha coragem de dizer basta?

Se interpelarmos o director de Departamento do Ensino Superior, ou o secretário de Estado do Ensino Superior ou o próprio ministro da Educação, sobre o significado do que acima ficou descrito, certamente que nos remeterão para a autonomia das escolas, respectivos conselhos científicos, falarão de atrasos de décadas e invocarão a necessidade de consensos para intervirem.

As grandes questões que interessam à Educação deveriam, desejavelmente, colher amplo consenso antes de serem alvo de decisões. Esta é uma afirmação dificilmente refutável. Mas será mesmo assim? Será possível, no estado actual, conduzir a Educação nacional com o acolhimento de tal pressuposto? Penso que não e justifico, entre outras, pelas seguintes razões:

1. O sistema educativo bateu no fundo. Quando é assim, as intervenções assumem carácter de emergência e não se podem conciliar com processos próprios de estádios normalizados. A confusão é tal, a inversão de valores tamanha e a ausência de referências tão grave, que a liderança forte e a capacidade de decisão rápida são indispensáveis à condução da Educação nacional a trilhos que não continuem a comprometer o desenvolvimento do país. Temos crescido, mas não nos temos desenvolvido. O nosso atraso não é compaginável com processos morosos, de eficácia duvidosa. Adivinho eventuais críticas. Antecipo como é fácil ser contraditado pelos defensores do "diálogo", das "amplas liberdades", dos "direitos adquiridos", etc. Mas, mesmo assim, corro o risco e rebelo-me contra a onda que nos afoga em mediocridade há mais de duas décadas.

2. Pais, professores, alunos, Estado, sindicatos, partidos políticos, associações profissionais, etc., têm interesses próprios, que colidem com frequência. Como é possível falar de consensos, face a objectivos organizacionais opostos?

3. Aqui, como noutras áreas sociais vitais, o problema não é já o de identificar o que há a fazer, mas sim o de fazer o que tem que ser feito, com a coragem de enfrentar interesses corporativos implantados.

Um verdadeiro desígnio nacional reside hoje na necessidade de esclarecer o papel de cada um no processo de ensino. Cada um deve ter uma justificação no seio do sistema, sentir a respectiva responsabilidade e saber, em cada momento, que a mesma lhe pode ser pedida, não importa a que nível.
 

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