Diário de Notícias - 19 Jan 04

Acossados
João César das Neves   

Na nossa sociedade existem duas ideias dominantes. A primeira é a «tese da exploração», a certeza da permanente tensão entre opressores e oprimidos, onde o excesso de poder de alguns estrangula os demais. A segunda é que todos se julgam explorados, vítimas da prepotência alheia. Se falarmos directamente com aqueles que consideramos mais poderosos e influentes, veremos que até eles se acham acossados. O paradoxo é mais patente nos governantes. Os ministros, detentores nominais do poder, são o grupo mais pressionado e manipulado da actualidade. O que lhes impõe a opinião pública, o que dizem os jornais e os grupos de pressão, o que exige a economia, a máquina do ministério, a UE é o que têm de fazer. O seu real poder e liberdade é afinal muito reduzido. É difícil encontrar sector mais acossado que o dos políticos.

Esperaríamos então que as forças que «mandam» nos governantes fossem as determinantes da nossa vida. Mas basta falar-lhes para ver que também elas se sentem forçadas por outros. Os jornais e televisões, que mantêm o público pela trela, protestam sempre com a ditadura das tiragens e audiências. Vivem em permanente sobressalto de perda de «liberdade de imprensa» e afirmam-se incapazes de cumprir a sua magna função de informar pelas terríveis condicionantes do mundo moderno.

Os grupos de pressão e classes dominantes, advogados, juízes, funcionários, médicos, professores e tantos outros, são largamente beneficiários da honra, poder e dinheiros públicos. Mas, em vez de se julgarem privilegiados, acham-se sempre alvos de conspiração e injustiça, bodes expiatórios do desdém.

No lado económico, hoje a suprema tirania, passa-se o mesmo. Os empresários são vistos como os modernos ditadores; mas basta falar-lhes para constatar como, na sua opinião, isso é uma enorme ilusão. Reféns de clientes e mercados, de accionistas e concorrentes, de sindicatos e ministros, os capitalistas consideram-se as principais vítimas do sistema, tanto mais indignados por ninguém entender e lamentar a sua opressão. Pelo seu lado, os sindicatos, com grande poder e influência, são os mártires oficiais do regime e vivem em lamentação crónica. Face aos grandes ganhos das últimas gerações, as suas reinvindicações e protestos de opressão seriam doentios, se o axioma da exploração não os tornasse plausíveis. Esta regra repete-se em todo o lado. Nos debates actuais, do aborto à ecologia, todas as partes se sentem em minoria acabrunhada. Toda a gente se sente assustada com a brutalidade dos partidos extremistas e grupos radicais, a qual vem apenas de eles se sentirem assustados. Os americanos ameaçam o mundo porque se sentem ameaçados. Exactamente como os terroristas.

Não deixa de ser absurdo que seja no nosso sistema de democracia, tolerância e prosperidade que todos se sintam perseguidos e prejudicados. A razão de fundo é que, por melhor que seja a situação de cada um, ela é sempre pior que a promessa que lhe fora feita pelos sonhos de progresso. Em todos os tempos e épocas sempre houve invejas e revoltas comunitárias. Mas as pessoas respeitavam a estrutura social como natural e razoável, aprendendo a contentar-se com a sua situação, por pior que fosse. É difícil encontrar uma outra cultura onde a mania da perseguição seja tão dominante. A nossa época de liberdade transformou-se numa sociedade acossada pela liberdade alheia.

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