Na gestão do bem comum, nunca produzimos um único
excedente orçamental em toda a história das finanças
públicas da democracia. Parte dessa gastança é suportada
por quem a está a realizar – e isso vê-se nos impostos
crescentes.
A outra dimensão é mais obscura, e mais obscena,
porque vai directamente para a dívida pública (através
da famosa desorçamentação) ou agora tem o tratamento de
PPP (a parceria é com os privados, mas a conta fica a
consumir os recursos públicos dos próximos trinta anos).
Não bastava a irresponsabilidade financeira geral,
agora temos a amnésia colectiva. Os alertas são
sucessivos. A insustentabilidade da Segurança Social é
conhecida. Homens como Henrique Medina Carreira estão
cansados de escrever e falar disso.
Com estatísticas reais. Com projecções credíveis. Mas
sempre que um ministro aparece em público e diz o que
toda a gente já sabe, a reacção é de incredulidade. Dez
anos! Só temos as pensões de reforma garantidas até
2017?
Pois é! Como não é falta de consciência, só pode ser
consciência pesada. O tal diagnóstico que identifica
rigorosamente as origens de uma ruptura anunciada, as
proclamações pomposas sobre a insustentabilidade a
prazo, mas coragem para tomar as medidas? Zero!
E a vontade de algo sacrificar, esse sentido de
cidadania que agora os candidatos a Presidente andam
todos os dias a exaltar? Nada!
Este espanto escandalizado sobre uma intervenção
repetitiva de Teixeira dos Santos na TV podia ser uma
brincadeira de Carnaval. Mas não é porque ainda estamos
no rescaldo do espírito de Natal e, sobretudo, porque o
assunto não se presta a brincadeiras.
Evidentemente que nesta sociedade anónima de
irresponsáveis, as lideranças são os accionistas
maioritários.
As lideranças políticas, que se revezam no Governo e
andam há anos a iludir o problema. Com livros brancos e
discursos cinzentos.
As lideranças sindicais e patronais, que celebram
acordos, como aquele do ano 2000, que simulam medidas e
as adiam para as calendas gregas.
E quando alguém pergunta: aumento da idade de
reforma? Nem pensar. Tectos contributivos e plafonamento
das reformas? É uma aventura. Antecipar a fórmula de
cálculo que determina a pensão com base em toda a
carreira contributiva? Ainda é cedo.
Os nossos filhos mereciam melhores pais. A
civilização europeia criou este magnífico sistema
redistributivo, pensou na solidariedade entre gerações,
mas as actuais esqueceram-se das seguintes.
Foi você que pediu um
sobressalto reformista? Sim. Mas depois das férias a
crédito no Brasil.