Das superstições ao Apito Dourado, passando pela circunstância de
ser treinador do clube de que é adepto e terminando na constatação
de que para chegar ao titulo é preciso «contar» com terceiros.
— Há muita superstição no futebol?
— Há e não conduz a nada. Olhem, no meu primeiro ano de treinador do
Estoril subimos de divisão e eu tinha o hábito de vestir sempre a
mesma roupa nos dias dos jogos. Ia sempre com o meu fato e no fim da
época, quase no verão, com um calor horrível, eu andava com um lato
de flanela. Meti na cabeça que era aquilo que me ajudava a ganhar
jogos, quando era o meu trabalho e o dos meus jogadores que o fazia.
No ano seguinte tomos para a primeira divisão e perdemos os quatro
primeiros jogos.
No primeiro vesti um fato, no segundo vesti outro, no terceiro
voltei a mudar e no quarto tive de acabar com a superstição porque
já não tinha mais fatos. Faz-me lembrar aquela história do homem que
estava zangado com Deus porque nunca lhe saía o euromilhões. Um dia
Deus veio cá abaixo e disse-lhe, «é pá, pelo menos mete o boletim».
Ora, o nosso trabalho, meu e dos jogadores, é como meter o
boletim... Porque se nos sentarmos à sombra à espera que caia, não
vamos a lado algum.
— Ser treinador, como é o caso, do clube de que é adepto, encerra
alguma diferença relativamente a experiências anteriores,
nomeadamente no FC Porto e no Sporting?
— Como treinador sou profissional e independentemente de ser adepto
ou não, faço sempre o melhor que sei.
— Que perspectivas tem para 2007?
— Melhorar, melhorar sempre, não só como pessoa mas também em termos
profissionais.
— Acredita que ainda vai a tempo de ganhar o campeonato?
— Vou trabalhar muito para isso. Mas, face à classificação, ser
campeão não depende exclusivamente de mim e da minha equipa.
— Apito Dourado, o que vai acontecer?
— Há questões que devem ser os tribunais a decidir e fazer
julgamentos na praça pública, condenando ou absolvendo, não me
parece bem. Porém, de uma coisa estou certo. É um caso que quanto
mais cedo estiver resolvido melhor.
BREVE PINCELADA NA ACTUALIDADE BENFIQUISTA
Rui Costa teve fases de sofrimento e angústia
Plantel, que deseja mais curto e mais forte; definição organizativa,
que urge já para os primeiros dias de 2007; e Rui Costa, uma
referência do Benfica, eis alguns tópicos a que Fernando Santos não
foge.
— Espera um Benfica com mais definição organizativa em 2007?
— Encontrei o Benfica, em alguns aspectos, claramente melhor do que
eu ouvia falar.
— Mas neste momento há um indefinição com que não deve ser fácil
lidar no dia-a-dia...
— Toda a gente pensa isso.
— Menos plantel, melhor plantel, em 2007?
— Já o disse muitas vezes. É incomportável trabalhar com 29
jogadores. É inevitável que isso gere insatisfação nos próprios
atletas: Onze jogam, sete vão para o banco e outros onze nem
convocados são. Não faz sentido. É um foco de insatisfação que gera
instabilidade. Depois, em termos de trabalho quotidiano, também é
mais difícil planear o treino. A propósito, há uns anos, no Estrela
da Amadora, um dia cheguei à cabina e dei um papel a cada jogador,
pedindo que escrevessem a equipa que entendiam seca melhor.
O sultado foi: 24 jogadores, 24 equipas diferentes. Esta é a razão
por que há treinador e quanto mais vasto for o plantel, pior...
— Por onde deve caminhar o Benfica?
— Pelo caminho da estabilidade e da qualidade, que permita
conquistar títulos, de forma continuada.
— É possível adquirir qualidade sem dinheiro?
— Tem de se gerir bem o dinheiro e, como primeira regra, não deixar
sair os melhores elementos.
— O Rui Costa é o grande reforço de 2007?
— Já tinha dito que o era no início da época, não só pela qualidade
como jogador mas também por aquilo que pode transmitir.
— Como é que o viu nesta travessia de deserto?
— Teve fases de grande sofrimento e de enorme angústia, mas manteve
uma vontade férrea de voltar tão depressa quanto possível à
competição. Afinal, nada de estranho numa pessoa que trazia tantas
expectativas e sente o Benfica como ele sente... Faço votos para que
nunca mais tenha de passar por uma provação destas.
— Quem é o seu interlocutor, actualmente, em termos directivos?
— Neste momento com o presidente. Falamos todos os dias. Antes era
com José Veiga.
O LIVRO QUE LHE MUDOU A VIDA E A FORMA COMO FERNANDO SANTOS SE
RELACIONA COM DEUS
EM 1994, o padre Luís deu a Fernando Santos um exemplar do livro A
Fé Explicada, da autoria do clérigo norte-americano. Leo J. Trese. E
a vida do técnico encarnado começou a mudar, aproximando-se de
Deus. Mais tarde, a presença num curso de cristandade, por altura do
seu despedimento do Estoril, em 1994, acabou por consumar o clique
anteriormente sentido.
Foi nesse curso que lhe deram o crucifixo que o acompanha em todas
os momentos. Até durante os jogos de futebol. Foi também nessa
altura que lhe disseram «Cristo conta contigo» e Fernando Santos
respondeu «pode contar.»
— Que significa paira si a espiritualidade?
— É algo que só se sente. No meu caso sinto a presença do Espírito
Santo. Quando dizemos que alguém tem muita espiritualidade, tem a
ver com a presença desse espírito, que nos conduz a algo em que
acreditamos, que pauta a vida segundo certos e determinados
princípios.
— Esse sentimento altera a vida de uma pessoa?
— Claro. E tem a ver com fé, que é algo em que se acredita sem se
ver, ao contrário de São Tomé. Para se ter fé é preciso acreditar
numa coisa que não se conhece, porque a partir do momento em que é
conhecido deixa de ter sentido falar em fé. Mas quando se encontra
esse caminho da fé, isso passa a pautar a nossa vida.
— Ter fé é um processo evolutivo, ou pode ser um clique, um instante
que tudo muda?
— Ser chamado à fé pode revestir muitas formas. Há uma passagem no
Evangelho, que diz que logo pela manhã estavam os trabalhadores
sentados numa praça à espera que os chamassem para a labuta e afinal
uns eram imediatamente convocados, outros só ao meio-dia, outros à
tarde e outros à noite e no fim todos recebiam por igual. Eu
interpreto essa passagem como as diferentes vias de chegar à fé. Há
quem tenha sido baptizado e nunca tenha andado afastado da igreja,
outros só mais tarde é que regressaram aos caminhos da fé e outros
ainda só já na idade adulta receberam o baptismo.
— Como foi o seu caso?
— Foi um caso de clique. Como quase todos os miúdos do meu tempo fui
baptizado, andei na catequese, fiz a primeira comunhão, fui crismado
e depois... desliguei.
Dediquei-me aos estudos, ao futebol e a fé ficou, de algum modo, de
lado, embora nunca tenha deixado de agradecer, rezando à noite. Isso
fiz sempre. Posso, nesses tempos, ter-me afastado da igreja, mas
nunca me afastei de Deus. E a fé precisa de ser alimentada, é, nesse
aspecto, como a vida, porque se não comermos nem bebermos acabamos
por morrer.
— Mas voltando ao seu caso...
— Ainda antes do clique que senti, costumo dizer que tive um período
mais do que ligado à fé, ligado à fezada. Toda a gente sabe do que
estou a falar! Quando estamos aflitos ou vamos a igreja, ou vamos a
Fátima, ou colocamos uma vela para que o exame corra bem.
É uma facilidade terrível... é dar um chouriço e ficar à espera, em
troca, de um porco. Quando entramos no futebol, esta fezada
confunde-se amiúde com religião mas é, acima de tudo, superstição:
entrar com o pé direito, com o benzer e por aí fora. Mas, neste
processo de algum afastamento, nunca abandonei os princípios da
igreja apostólica, católica e romana: casei pela igreja, baptizei os
meus filhos e coloquei-os em colégios de matriz cristã. Ia sobretudo
à igreja quando tinha casamentos e baptizados mas, como tenho cerca
de 60 afilhados, posso dizer que fui lá muitas vezes.
— E o clique?
— Aconteceu durante a inauguração da clínica de um amigo meu, o
Manuel Pinto Coelho. Estava lá o sacerdote - o padre Luís - que foi
realizar a bênção do espaço e no fim pediu-me boleia.
No caminho falámos bastante e quando o ia deixar em casa disse-lhe
que um dia gostava de conversar com maior profundidade com ele.
Passados uns tempos liguei-lhe e fomos almoçar. Ofereceu-me um
livro, A Fé Explicada, de 1959, autoria do padre norte-americano Leo
J. Trese, porque já sabia das minhas dúvidas, especialmente aquela
ideia que nos colocavam na cabeça na escola de um Deus castigador.
— O livro ajudou-o ?
— A verdade é que li o livro e ajudou-me bastante. Descobri que Deus
não só não é castigador como perdoa sempre; e a gravidade daquilo
que fazemos depende muito das circunstâncias e da consciência do
pecado que está a ser cometido. Outra questão que me metia confusão
era a da criação do Universo. Cientificamente está provado que foi
através do Big Bang. Mas quem carregou no botão? E aí, para mim, a
resposta só pode ser uma: Deus.
— Tudo mudou, a partir dessa conversa e desse livro?
— Comecei a ir à igreja, à eucaristia, dando expressão a uma
necessidade de aproximação e entendimento. Aliás, eu sempre fora
demasiado racional e queria perceber tudo. Ora, a fé não se percebe,
sente-se.
— Esse clique inicial foi aprofundado?
— Sim. No dia em que fui despedido do Estoril, em 1994, um casal
amigo, à noite, em minha casa, falou-me de um curso de cristandade,
argumentando que se tratava de um retiro durante três dias que
poderia ser bom para mim. Primeiro disse que não, mas depois,
pensando melhor, porque me sentia em baixo, acabei por aceder.
— Estava mesmo a viver um grande problema?
— Reconheço hoje que aquilo que me parecia um drama pessoal, ter
saído, após 20 anos, do Estoril, não tinha esse valor: eu mantinha o
meu emprego de engenheiro no Hotel Palácio, a minha mulher era
professora, os meus filhos estudavam e o ambiente em minha casa era
bom, mas a verdade é que na altura acreditava estar perante um
grande problema e três dias de retiro podiam ser interessantes. E lá
fui, na expectativa de que me ajudasse a pensar, a organizar ideias,
a ter uma nova perspectiva sobre o que queria da vida.
— E o que aconteceu?
— Não deixando de continuar a ser eu, com os meus defeitos e
virtudes, a minha vida mudou.
Sem magias ou pozinhos de prilimpimpim, apenas encetando um
relacionamento diferente com os outros. E recordando algumas coisas,
por exemplo que Deus é Pai, é Filho e é Espírito Santo, que é
omnipresente, que Deus está vivo em cada um de nós. Disseram-me «tu
és Cristo». «Eu, Cristo?», pensei, mas em todos os baptizados Cristo
é continuado.
Houve muitas coisas importantes, muitas revelações naqueles três
dias.
— Quer partilhá-las connosco?
— Reflecti sobre o que Cristo disse quando Lhe perguntaram qual era
o maior dos Mandamentos inscritos nas Tábuas da Lei: «O primeiro é
'Amai a Deus acima de tudo' e o segundo (q[ue não constava das leis
de Moisés) é 'amai os irmãos como a vós mesmos'». Isto para mim foi
marcante, esta questão de que todos somos irmãos. Mas o mais
importante foi ter passado a acreditar na Ressurreição. Não tenho
dúvidas nenhumas de que tudo isto é apenas uma passagem. E nada
teria sentido se não fosse.
O que fazemos aqui, porque somos diferentes, porque cumprimos
algumas regras morais que ninguém nos ensinou. Eu acredito que a
vida, através de Cristo, venceu a morte e que há outra vida para lá
da morte.
— Como é?
— Não sei. Mas sei que há. E sei que é aqui, na vida terrena, que
escolhemos o caminho que depois vamos trilhar. Aliás, numa das
cartas, São Paulo refere-se a este tema de forma lapidar: «Se Cristo
não ressuscitou, não há fé». Ser cristão e ser católico é acreditar
na Ressurreição de Cristo. Se não acreditar, então deve ser outra
coisa qualquer. E há outras religiões monoteístas, que eu respeito,
que acreditam que há vida depois da morte, mas obedecem a parâmetros
diferentes.
Mas nesta matéria, eu até respeito aqueles que não acreditam em
nada. Porém, eu já coloquei esta. questão a um amigo meu que é ateu:
«Se Deus, de facto, não existe, para quê negá-lo?»
— O Deus castigador desapareceu?
— Eu não mato só porque, se o fizer, posso ir preso. Não mato porque
moralmente é um acto que não devo cometer.
— Como transporta a fé para o futebol?
— Tenho comigo sempre o crucifixo que me acompanha desde 1994.
Deram-mo no último dia do curso de cristandade e disseram-me, nesse
momento: «Cristo conta contigo.» E eu respondi, «pode contar.» A
partir desse dia o crucifixo nunca mais me abandonou para me lembrar
que tenho um compromisso com Cristo, que passa, sobretudo, por
tentar ser melhor na minha relação com os outros: mais fraterno,
mais preocupado, mais solidário.
Porém, este processo tem de começar por mim e não pelos outros. Não
quero, de uma só vez, mudar o mundo.
— Só tem de fazer a sua parte...
— Exactamente. O grande problema é que há muita gente a querer mudar
o mundo e esquece-se de se mudar a si próprio.
— Mas a Igreja, por vezes, não dá os melhores exemplos...
— Pois não. Mas há uma grande diferença entre o que é a doutrina da
Igreja de Cristo e os homens que a servem. E isto é válido para
outras religiões, porque não conheço nenhuma que não pregue o bem.
Posso dizer até que conheço pessoas boas, que vão ter na outra vida
um lugar melhor do que o meu e que nunca foram à igreja.
— Assim sendo, vale a pena ir à igreja?
— Claro que sim. Ali há um caminho e se o percorrermos também lá
chegaremos.
— Os problemas inter-religiosos são coisas dos homens?
— Obviamente. As várias religiões têm doutrinas e pensamentos
diferentes, caminhos também diferentes: para os judeus Cristo foi
apenas um profeta e aguardam ainda a vinda do Salvador, para os
muçulmanos o Messias foi Maomé... mas a doutrina de todas é uma
doutrina de bem.
— Pede ajuda divina para os jogos?
— Antes de fazer o curso de cristandade era capaz de pedir para
ganhar um jogo e depois, ganhasse ou perdesse, já não me lembrava
mais. Depois tudo mudou. Passei a fazer as minhas orações de manhã,
onde entrego o meu dia a Deus, peço-lhe que me ajude no caminho, na
minha relação com os outros e à noite volto a rezar, agradeço a Deus
e faço uma retrospectiva do que fiz de bem e de mal.
— Então hoje em dia, antes dos jogos, qual é o seu comportamento?
- Peço o mesmo que nos restantes dias. Entrego o meu trabalho a Deus
e quer ganhe, quer perca, agradeço sempre a Deus.
— E como encara os erros de arbitragem que penalizam a sua equipa?
— Os árbitros são homens sujeitos ao erro. Porém, não deixam de ser
erros e, como tal, passíveis de crítica, tal como os treinadores, os
jogadores ou os jornalistas também podem errar. Agora não tenho o
direito de atacar um árbitro, enquanto pessoa, por um erro dentro
das quatro linhas.
NA PRIMEIRA LINHA DO «NÃO» NO REFERENDO À INTERRUPÇÃO VOLUNTÁRIA DA
GRAVIDEZ
Sou sempre pela vida
Contra o aborto, contra a eutanásia, contra a pena de morte, sempre
e sempre pela vida, eis o pensamento que Fernando Santos assume e
está pronto a defender publicamente nos agitados dias que se
avizinham. Um discurso que só se afasta das posições mais ortodoxas
da igreja Católica na questão da contracepção, que defende.
«A vida nasce a partir da concepção e deve ser defendida», diz sem
qualquer pretensão persecutória contra as mulheres que abortam.
— É em nome dos princípios que tem estado a enunciar que está a dar
a cara pelo «não» no referendo à interrupção voluntária da gravidez?
— Exactamente, da mesma forma que participei no referendo anterior.
— Esta intervenção pública causa-lhe alguns engulhos em termos
profissionais?
— Tenho convicções na vida e sempre pautei por elas o meu
comportamento. E não tenho a mais pequena intenção de alterar este
padrão comportamental. As pessoas têm de me aceitar como sou. E se
sou pela vida, não faria sentido outro comportamento.
— Mas continua a haver uma realidade, incontornável, que mostra
milhares de mulheres a abortar anualmente, muitas vezes sem
quaisquer condições de salubridade. E há anda a questão da
penalização...
— No campo do «não», ninguém quer penalizar as mulheres. O que
defendemos é a vida e esta começa no momento da concepção. Da mesma
forma que, em nome da defesa da vida, ou contra a pena de morte. Mas
voltando à questão do aborto, atentem neste exemplo: há um indivíduo
que entra num supermercado e rouba. É crime? Claro que sim. Porém,
depois vem a saber-se que tem 10 filhos, tinha sido despedido no dia
anterior e não tinha comida para lhes dar.
Contínua a ser crime, porém, com muitas atenuantes. E se calhar a
pena não passará de um trabalho cívico. Mas o fundamental é resolver
a questão social subjacente ao crime.
— A ignorância ainda é um obstáculo?
— Acredito que haja mulheres que tomam essa decisão por não terem
estado, antes, suficientemente informadas. Agora dizer-lhe que está
tudo bem, que podem interromper a gravidez à vontade, é que não me
parece o caminho correcto, é não pensarmos na defesa da vida.
— Não há excepções?
— Haverá, quando for necessário, por razões médicas, optar entre
vida do filho e a vida da mãe.
— Mas a Igreja proíbe os contraceptivos e advoga métodos ditos
naturais. Concorda?
— Não sou contra o uso dos contraceptivos. Mas na própria Igreja vai
existindo alguma abertura em relação a essa questão. Admito que um
casal, numa determinada fase da vida, não queira avançar para uma
criança. E há tantas formas de resolver, em segurança, essa opção...
— Se alguma vez se vir numa situação desesperada, aceita pedir ajuda
para morrer?
— Não, nunca. Eu não pedi ajuda para nascer, também não vou pedir
para morrer. O que digo é que no dia em que a morte tiver de chegar
que chegue de forma rápida.
Mas se assim não for... quem tem fé acredita que o sofrimento é uma
maneira de alcançar outro patamar. Nem aborto, nem eutanásia, nem
pena de morte. Não há o direito de tirar a vida a alguém.
— Nem a Saddam Hussein?
— Saddam era aquilo que todos sabemos e creio que não devia fazer
parte da nossa sociedade. Mas seria sempre possível encontra-lhe um
destino, no cárcere, que evitasse a pena de morte. O mesmo é válido,
grosso modo, para os violadores, que me metem um particular asco.
— E se um dos seus filhos fosse vítima de um acto desses, não
repensaria essas convicções?
— Acredito no direito à vida. Porém, sou suficientemente humilde
para, numa situação dessas, lembrar o provérbio «não digas dessa
água nunca beberei.» Mas aí deixa de ser a razão e passa a ser a
emoção a falar.