Diário de Notícias - 07
Jan 07
Mais de 120 mil nomes contra a
despenalização
Alfredo Mendes
Cerca de
uma vintena de movimentos de defesa do "não" à despenalização do
aborto esteve reunida no Porto, tendo em vista concertar
estratégias, coordenar mensagens e definir linhas de actuação.
Durante a convenção nacional foi revelado que mais de 120 mil
assinaturas já foram recolhidas a favor do "não". Um número "muito
significativo", a indiciar, dizem, uma vitória no referendo. Cada
movimento necessita de cinco mil assinaturas para poder participar
de forma activa na campanha.
Margarida Neto, da Plataforma Não Obrigada, um dos movimentos
presentes, abordou a expressão liberalização, que, disse, significa
gratuitidade. Logo, os impostos dos portugueses, sublinhou a médica,
vão para essa prática. Em concreto, serão proporcionados "negócios
chorudos" com clínicas privadas, agravando-se simultaneamente as
contas do Serviço Nacional de Saúde.
Mais grave ainda, apontou: secundariza-se a promoção da maternidade,
banaliza-se e é facilitado o aborto, acto médico prioritário em
detrimento de intervenções cirúrgicas urgentes. E exemplificou com
intervenções cirúrgicas ao cancro e o aumento das listas de espera.
No decorrer do encontro considerou-se que o aborto há já alguns anos
que não é passível de penalização. A alteração da lei visa, então, a
"liberalização total". Ainda de acordo com a jurista Marta Lopes
Cardoso, cria-se "um acto antimédico", para além de se proceder a um
"retrocesso civilizacional".
Na óptica de outra oradora convidada, o aborto não é solução para a
exclusão social. O Estado, com esse procedimento permitido, "desresponsabiliza-se",
deixa de encontrar saídas para os problemas que conduzem à
interrupção da gravidez. Ana Maria Ramalheira também afirmaria que o
aborto "a pedido é um acto contranatura". Relevou o desempenho de
muitas instituições contrárias ao aborto que, pormenorizou, "já
apoiaram 7830 mulheres. E questionou: "O que fizeram desde 1998 os
defensores do 'sim'? A resposta: 'Nada!'"
Outra tónica da sua intervenção respeitou ao envelhecimento da
população, ao cada vez mais reduzido número de pessoas na vida
activa que têm de descontar para os aposentados. Um défice
demográfico acumulado de 800 mil bebés desde 1991, precisou. Assim,
"o futuro colectivo está em causa". Ana Ramalheira falou da vizinha
Espanha, onde, referiu, a aprovação da lei actual fez disparar o
número de abortos. Na convenção foi afirmado que a pergunta do
referendo não é clarificadora. Porém, espera-se uma baixa abstenção.
Até porque as barrigas das mães "são transparentes".