Expresso- 07
Jan 07
O mundo mudou
António Pinto Leite
A grande questão é a de saber se o nosso país tem
atractividade para dar futuro a um número crescente
de jovens portugueses com mundo
Este período de Natal
sublinhou-me como o mundo, o nosso mundo português,
mudou.
Já fora para mim interpelativo, meses atrás,
assistir aos esforços das minhas filhas e de uma
prima para prestarem serviço social na Índia.
Impressionou-me, sobretudo, a naturalidade com que
três raparigas, pelos vinte anos de idade, através
da Internet comunicaram com o outro lado do mundo,
com gente desconhecida, ajustando a sua ida e o seu
trabalho social nas cidades críticas da Índia. Lá
foram, como se fosse ali ao lado.
No dia de Natal, uma familiar de 18 anos chegou de
Inglaterra onde trabalhou seis meses, outro voltava
para lá para concluir o curso de veterinária. Um
metro adiante, outro jovem diz-me que deixou o seu
emprego, na área do turismo, e decidiu partir para
Madrid, sem nada na manga.
Depois da Índia, uma filha chega de Viena, do
Erasmus, com dez amigos, nenhum da mesma
nacionalidade. A outra filha parte para Londres, à
procura de emprego na área do serviço social. Parte
com uma prima, que ficará por lá como assistente
social.
Esbarro com os filhos dos amigos, um chegado do
Canadá, outro de Barcelona, outro de Roma.
De S. Francisco chega outro, a meio do seu
doutoramento, para os EUA parte outro, também em
formação complementar. Para o Brasil parte ainda
outro, que se apaixonou por uma brasileira.
Esta geração é global. Pensa global, age global,
quer global.
Em poucos anos, a sociedade portuguesa terá uma
massa crítica muito superior àquela que alguma vez
teve.
A princípio, são os mais dinâmicos, os mais
atrevidos, os que têm melhores condições económicas
a abrir e a aproveitar estas oportunidades. Mas a
tendência é de generalização, porque se trata de uma
cultura, de uma atitude perante o mundo, de uma bola
de neve.
Nunca o mundo foi tão propício a gente de qualidade
e com sonhos firmes. A globalização é o maior
horizonte de oportunidades alguma vez criado pela
História.
O pequeno Portugal da minha juventude, cercado de
fronteiras na Europa e com o próprio desígnio de
África cercado pela guerra, deu hoje lugar a um país
sem fronteiras, nem físicas, nem culturais, nem
económicas.
A grande questão é a de saber se o nosso país tem
atractividade para dar futuro a um número crescente
de jovens portugueses com mundo e com a exigência
dos países mais fortes interiorizada.
Portugal tem de saber ser uma terra de oportunidades
para os seus jovens mais dinâmicos e determinados.
Não é um desafio apenas dos governos, é um desafio
de todos. Sobretudo dos nossos empreendedores,
preparando-se eles também para saberem criar, na
nossa terra, desafios estimulantes para esta geração
global.
A maior riqueza de uma sociedade são os que
empreendem. Este activo social de gente que se
desloca pelo mundo em busca da excelência, do
desafio e da realização plena é um formidável activo
de empreendedorismo.
O mundo mudou, Bombaim, Viena ou Setúbal parecem
estar à mesma distância. A tradicional pequenez
portuguesa está ameaçada, belo presente de Natal.