Público - 14
Jan 07
Apoiantes do "não" relacionam IVG com doenças psiquiátricas
Carolina Reis
Laurinda Alves, membro do movimento Independentes
pelo Não, considera que
"aborto é a palavra correcta" porque "a interrupção
pressupõe que se continue em frente,
que há um momento a seguir, mas a vida humana não se
retoma"
Os apoiantes do "não" apresentaram ontem um estudo
norte-americano que defende que as mulheres que
interrompem voluntariamente a gravidez têm um risco
aumentado de sofrer de doenças psiquiátricas. A
apresentação do estudo surgiu durante uma
conferência que decorreu no Centro Cultural de
Belém, organizada pela Associação Católica de Meios
Sociais Independentes. Subordinada ao tema Escolher
a Vida, a conferência contou com a presença da
jornalista Laurinda Alves, membro do movimento
Independentes pelo Não, do médico João Paulo Malta,
médico obstreta e membro da plataforma Não Obrigada
e do médico psiquiátrico Pedro Afonso.
O estudo, apresentado pelo médico Pedro Afonso, foi
realizado pelo médico norte-americano David C.
Reardon, publicado no jornal da associação médica
canadiana e tem na sua base uma amostra de 56.741
mulheres, sem antecedentes psiquiátricos e com
idades compreendidas entre os 13 e os 49 anos. Do
total da amostra 15.299 interromperam uma gravidez
legalmente e 41.442 preferiram não o fazer.
Pedro Afonso justificou a escolha deste estudo ao
considerar que em Portugal "não há dados sérios
sobre o assunto". Ao PÚBLICO o médico declarou que
"não quer dizer que uma mulher que tenha abortado
sofra obrigatoriamente de doenças psiquiátricas, mas
há um risco maior". E deu como exemplo a doença
bipolar, que, de acordo com o estudo realizado, se
verificou três vezes mais em mulheres que
interromperam a gravidez.
O estudo indica ainda que, no grupo das mulheres que
interromperam a gravidez, as que correm maior risco
de sofrer de doenças psiquiátricas são as mais
jovens, as que têm um "baixo apoio social", as que
foram forçadas a não prosseguir com a gravidez, as
que já tinham doenças psiquiátricas e as que se
sentiam com dúvidas quanto à decisão.
Laurinda Alves, a quem coube moderar o debate,
afirmou que a "interrupção voluntária da gravidez" (IVG)
é uma denominação enganadora e defendeu o uso da
palavra "aborto".
"A interrupção pressupõe que se continue em frente,
que há um momento a seguir, mas a vida humana não se
retoma. Aborto é a palavra correcta", frisou.
Durante a conferência, Laurinda Alves defendeu que
actual lei é "equilibrada e ponderada". E que o que
está em causa no referendo de 11 de Fevereiro é uma
lei que "desequilibra valores éticos, jurídicos, de
saúde". Considerou também que o dinheiro que será
utilizado para custear a IVG poderia ser usado na
prevenção e no apoio a mães que têm "de lidar com
esse drama humano e moral".
João Paulo Malta acusou ainda os defensores do sim
de lamentarem mais pela morte de Saddam Hussein do
que pela "morte de um embrião". O médico considerou
que uma grande parte das pessoas não compreende o
conteúdo da pergunta do referendo.