Público- 15
Jan 07
Novos paradigmas
José
Manuel Fernandes
O futuro
do Estado social pode passar mais pela garantia da liberdade do que
pela fixação na igualdade
Em Abril de 1985, no Congresso de Toulouse do
Partido Socialista francês, Pierre Mauroy
reconheceu: "O mercado demonstrou-nos claramente que
é um dos caminhos para a liberdade (...). Não
compete ao Estado produzir. Isso é tarefa das
empresas" (citado de One Hundred Years of Socialism,
de Donald Sasson).
Depois da desastrosa experiência dos primeiros anos
da Presidência Mitterrand, quando a esquerda unida
chegou ao poder em Paris, estas palavras de Mauroy
indicavam o reconhecimento de uma evidência até
então negada por muitos na esquerda e, também, na
direita. Passado pouco tempo, os mesmos socialistas
franceses regressariam ao poder apresentando um novo
slogan, impensável antes: "Sim à economia de
mercado, não à sociedade de mercado". Num país onde
tanto a esquerda como a direita nunca foram
especiais adeptas do mercado, a frase pegou, apesar
de não explicar o que queria dizer "sociedade de
mercado". O tempo tem mostrado que serviu,
sobretudo, para procurar uma nova trincheira: o
Estado aceitava que o mercado funcionava melhor para
criar riqueza, mas reservava para si todas as
missões sociais e de redistribuição no pressuposto
de as realizar melhor.
É, pois, importante verificar se essa pretensão é
verdadeira. Por outras palavras: se depois dos anos
triunfantes do pós-guerra que permitiram criar o
"Estado social" como hoje o conhecemos, das crises
dos anos 1970, 1980 e 1990 que mostraram os seus
limites, numa era de globalização e de emergência de
novas potências económicas, o princípio do Estado
fornecedor universal ainda é o mais válido, o mais
realista e, sobretudo, o mais eficaz para alcançar
os desígnios de justiça.
Este tema já alimentou duas sessões de discussão
promovidas pela Fundação Oliveira Martins sob a
designação genérica de Encontros dos Jerónimos.
Depois de uma introdução geral ao tema com um debate
realizado a 16 de Dezembro, no sábado passado
discutiu-se o Ensino Obrigatório.
Onde é que a ideia de "Estado-garantia" se distancia
da maioria das versões de "Estado social"
construídas na segunda metade do século XX? Ao
colocar no seu centro a obrigação do Estado de
defender a liberdade, em especial a liberdade de
escolher diferentes caminhos ao longo da vida,
garantindo ao mesmo tempo que ninguém, por falta de
meios, fica privado dessa liberdade. Ou seja, em
lugar de tratar todos por igual, o Estado deve antes
assegurar que todos têm iguais oportunidades de
serem livres e, também, diferentes. Como escreveu
Fernando Adão da Fonseca na revista Nova Cidadania,
"o verdadeiro Estado Social é um Estado-Garantia, na
medida em que lhe compete garantir um mínimo de
liberdade de escolha a todos os cidadãos. Quando um
direito estiver em risco por falta de meios, o
Estado-Garantia tem a obrigação de garantir os
recursos económicos que possibilitem o exercício da
liberdade protegida por esse direito".
De certa forma, o que este novo paradigma defende é
que se o mercado se mostrou mais eficiente do que o
planeamento centralizado para produzir riqueza,
aquilo que faz funcionar o mercado - a concorrência
e a liberdade de iniciativa - pode também tornar
mais eficientes serviços que são repartições do
Estado que agem não em função do que os cidadãos
desejam, mas do que o Estado entende que é melhor
para eles. A questão do ensino obrigatório e de quem
o deve proporcionar numa época de sociedades cada
vez mais plurais e complexas ilustra bem a
alternativa, pois é fácil entender que um serviço
público - ensinar - não tem sempre de ser assegurado
por repartições públicas, como no fundo são as
escolas enquanto organismo da administração
descentralizada do Estado.
O tema é apaixonante, o modelo suscita muitos
problemas práticos, mas a discussão deve prosseguir
com os olhos no futuro e pensando que o passado é o
nosso ponto de partida, mas não o de chegada.