Público - 17
Jan 07
Vai uma taxa?
Joaquim Fidalgo
Um senhor que não conheço decidiu, há tempos,
escrever uma carta a um banco, comentando com azeda
ironia (pudera!...) as taxas, taxinhas e taxonas que
lhe eram cobradas pelo simples facto de adquirir um
dos serviços financeiros oferecidos. Com a devida
vénia, transcrevo:
"Vamos imaginar a seguinte situação: eu vou à
padaria para comprar um pão. O padeiro atende-me
muito gentilmente, vende o pão, mas cobra o serviço
de embrulhar ou ensacar o pão, assim como todo e
qualquer outro serviço. Além disso, impõe-me taxas.
Uma "taxa de acesso ao pão", outra "taxa por guardar
pão quente" e ainda uma "taxa de abertura da
padaria".
"Fazendo uma comparação, foi o que ocorreu comigo no
meu banco. Financiei um carro. Ou seja, comprei um
produto do negócio bancário. Os senhores cobraram-me
preços de mercado, tal como o padeiro me cobra o
preço de mercado pelo pão. Entretanto, de forma
diferente do padeiro, os senhores não se satisfazem
cobrando-me apenas pelo produto que adquiri.
"Para ter acesso ao produto do vosso negócio, os
senhores cobraram-me uma "taxa de abertura de
crédito" - equivalente àquela hipotética "taxa de
acesso ao pão" (...). Além disso, para ter acesso ao
pão, digo, ao financiamento, fui obrigado a abrir
uma conta-corrente no vosso banco. Para que isso
fosse possível, os senhores cobraram-me uma "taxa de
abertura de conta". Como só é possível fazer
negócios com os senhores depois de abrir uma conta,
essa "taxa de abertura de conta" assemelhar-se-ia a
uma "taxa de abertura da padaria", pois só é
possível fazer negócios com o padeiro depois de
abrir a padaria.
"Pedi um extracto da minha conta (um único extracto
no mês), e os senhores cobraram-me uma taxa de 1
euro. Olhando o extracto, descobri uma outra taxa de
5 euros "para a manutenção da conta" - semelhante
àquela "taxa pela existência da padaria na esquina
da rua". E a surpresa não acabou: descobri outra
taxa de 25 euros a cada trimestre - uma taxa para
manter um limite especial que não me dá nenhum
direito. Se eu utilizar o limite especial, vou pagar
os juros mais altos do mundo. Semelhante àquela
"taxa por guardar o pão quente".
"Talvez os senhores me respondam que um serviço
bancário é muito diferente de uma padaria. Que a
vossa responsabilidade é muito grande, que existem
inúmeras exigências legais, que os riscos do negócio
são muito elevados, etc., e que, apesar de
lamentarem muito e nada poderem fazer, tudo o que
estão a cobrar está devidamente coberto por lei. Sei
disso. Como sei, também, que existem seguros e
garantias legais que protegem o vosso negócio de
todo e qualquer risco. Presumo que os riscos de uma
padaria, que não conta com o poder de influência dos
senhores, talvez sejam muito mais elevados.
"Sei que [essas taxas] são legais. Mas também sei
que são imorais."
Lembrei-me disto quando volta a ouvir-se que os
bancos (cujos lucros, recordo, têm sido obscenamente
elevados) querem passar a cobrar-nos uma taxa por
cada operação com cartão Multibanco. Ainda não
chega... Jornalista