No princípio
era o sexo. Íntimo. Bom. Romântico. Despreocupado.
Caloroso. Relaxante. Ou nada disto. Alimento da alma
ou escravo dos instintos. Mas sempre senhor absoluto
de todos os adjectivos. E velho conhecido de todos
nós.
Nasce connosco
e connosco vai para a cova. É o companheiro de todos
os dias, disse-o o velho Freud. Manipulador e
conhecedor dos nossos apetites e fraquezas está
sempre disposto a surpreender-nos.
Depois...
Depois passa a ser, para uns, uma saborosa
recordação.
E, para
outros, a gravidez indesejada, o aborto e, 'last but
not least', as doenças sexualmente transmissíveis. O
pesadelo. Mas porque se fala tanto de aborto e tão
pouco destas doenças que nunca mereceram a atenção
calorosa e a militância que vemos, agora, suscitar
tão grande empenhamento de amigos e inimigos da
liberalização do aborto?
O sexo não tem
nenhuma maldição como pensam, ainda, os mais
reaccionários e conservadores. Somos nós que o
amaldiçoamos todos os dias pelo uso apressado e
leviano que dele fazemos. Como se fosse um produto
descartável e tudo acabasse, muito
profilacticamente, com a euforia do orgasmo. O mal,
quer na gravidez indesejada quer na transmissão do
VIH e seus parentes menores, reside precisamente
numa mesma atitude de ignorância e falsa
despreocupação face à realidade. À difusão dos meios
de combater as possibilidades de eles se insinuarem.
Para que o sexo continuasse a ser sempre bom e não
passe a ser visto como uma ameaça.
Neste mundo
ameaçado pelo vírus do VIH (até nos continentes e
países mais desenvolvidos), dá que pensar a
preocupação dos adeptos da liberalização (e os da
não liberalização, a reboque) pelo desfecho do
referendo, como se tudo se acabasse a 11 de
Fevereiro.
Os esforçados
sapadores desta peculiar guerra estão no terreno 24
horas por dia, a minar os campos dos adversários. E
dispostos a tudo. Até a esquecer o que é essencial.
É o seu jogo da glória. A sua guerra particular. E
na guerra vale tudo.
Radicalizam-se
os discursos.
Chegam os
eufemismos, os exageros e as piores mentiras. É a
contra-informação no seu melhor. Como se lutássemos
pela salvação do mundo ou das nossas almas. Nesta
frágil campanha é proibido falar de educação sexual,
de apoio sério à maternidade, de esclarecimento
sobre a efectividade dos muitos métodos
contraceptivos e de planeamento familiar sem se
correr o risco de ser apontado como querendo a
continuação da penalização do aborto. A desvergonha
é total.
O PS e os
partidos de esquerda já deixaram cair a máscara.
Confessam que a derrota do 'sim' será a derrota dos
seus próprios partidos. Não precisavam, meus caros
senhores. Todos sabemos que o vosso objectivo nunca
foi praticar a caridade social. Foi politizar,
indignamente, o que pertence a um foro com uma
dignidade que a política perdeu há muito tempo.
P.S. -
Quarta-feira, na AR, num encontro de velhos amigos,
todos a abanar as cabecinhas como os velhos
marretas, uma senhora procuradora revelou a sua
lancinante preocupação com a corrupção ligada ao
aborto clandestino. E parece que ninguém se riu.
Mas eu,
confesso, não resisti. Agora sim, não ficará pedra
sobre pedra e vamo-nos tornar definitivamente um
País de santos.