Expresso - 20
Jan 07
Cega e Teimosa
Fernando Madrinha
A Justiça errou duas vezes e por isso é justa a
campanha pela libertação do sargento Gomes
Um homem é condenado a seis anos de prisão e a 30
mil euros de multa por querer preservar uma filha
que, não sendo do seu sangue, é do seu coração desde
os três meses de idade. Preferiu enfrentar e assumir
uma condenação a perder essa criança que recebeu e
sempre tratou como sua. Com esta opção, Luís Gomes,
sargento do Exército, fez mais uma e decisiva prova
do seu amor paternal.
Dito assim, tudo parece simples. E é tão evidente
para todos que custa a perceber como é que o
tribunal decide mandar para a prisão alguém que,
perante a sociedade, só merece aplauso. Afinal, o
casal recebeu a menina quando ninguém a queria - nem
a mãe, que lha entregou, nem o pai que se recusou a
aceitar a sua condição e até a dar-lhe o nome.
Desconfio de certas causas com sabor a campanha que
por vezes explodem na comunicação social. Perante um
coro de vozes apaixonadas, é preciso ver bem os
factos e os argumentos contrários aos da opinião
geral. Afinal, o pai biológico não se desinteressou
da menina. Teve uns meses de dúvida, é certo, mas
rapidamente quis saber do seu destino. Tanto que a
procurou, que tentou vê-la e falar-lhe, tanto que a
perfilhou quando ela tinha pouco mais de um ano. Não
existe sequer um processo de adopção concluído.
Porque andam os pais adoptivos a esconder a criança?
Um tribunal entregou a tutela paternal ao pai
biológico. Não se podem desvalorizar assim os
direitos do pai verdadeiro. Se as decisões da
Justiça nada valem, como pode organizar-se a
sociedade?
Realmente, o caso não é tão linear como parece à
partida. Mas também não é tão complexo que não se
vislumbre a saída. E esta é, realmente, a que a
própria lei e o mais elementar bom senso aconselham:
na dúvida, prevalece o interesse da criança. Ora,
não estando ela em idade de poder decidir por sim
mesma, o interesse da criança é evidente aos olhos
de toda a gente menos do tribunal: permanecer na
família estruturada que a quis desde sempre e que é
a sua. Não é do interesse da criança que se levantem
no exterior estas dúvidas serôdias sobre a sua
relação com essa família, se tal relação for boa e
equilibrada. E, sobretudo, não é do interesse da
criança ver-se privada por seis anos e nesta fase do
seu crescimento, da presença do homem a quem sempre
chamou pai e que, para os principais efeitos, é o
seu pai verdadeiro.
Neste processo, a Justiça errou duas vezes. Errou
quando decidiu de forma burocrática dar a tutela do
poder paternal ao pai biológico sem atender às
condições em que a criança vivia na família que a
tinha à sua guarda. E errou quando decidiu condenar
a menina a ficar sem o único pai que conhece, o
qual, pelo que se sabe, lhe tem dado a estabilidade
e o equilíbrio de que ela precisa. São justas,
portanto, não só a campanha informal nos «media», de
que desconfiei a princípio, como todas as
diligências para a libertação do sargento Gomes.
A pena de Luisão
Está instalada na sociedade portuguesa a ideia de
que o futebol profissional é um estado dentro do
Estado, de que a força dos seus tentáculos chega a
todo o lado. A arrogância dos dirigentes, a pública
e evidente má formação de alguns, o enriquecimento
súbito e não raro mal explicado de outros, a sua
relação espúria com certos poderes do Estado,
incluindo o poder político, tudo tem contribuído
para a má imagem que a indústria do futebol tem
entre nós. Isto para já não falar do comportamento
de alguns profissionais dentro e fora dos estádios,
impróprio de quem usa e às vezes abusa da condição
de ídolo, logo de exemplo, em especial para a
juventude. Ninguém esquece o episódio vergonhoso que
teve João Pinto como protagonista no Mundial da
Coreia, nem as imagens recentes de um Petit
ameaçador e empertigado perante um árbitro, em pleno
jogo.
Atitudes como estas, a par das frequentes agressões
entre os próprios profissionais, que em alguns casos
deviam determinar a sua irradiação pura e simples,
são, em grande medida, miméticas e consequência
lógica dos comportamentos dos dirigentes. Mas não
ilibam os futebolistas da sua própria
responsabilidade enquanto actores principais que se
exibem perante milhões de espectadores, nos estádios
e nas televisões.
Os jogadores são homens como os outros e têm, como
todos, o direito de errar. Quando erram, porém, como
foi o caso de Luisão ao exceder-se na bebida e
pôr-se ao volante, devem responder pelos erros como
respondem os outros cidadãos. Ora, por mais que se
diga que, para uma vedeta do futebol, 40 horas de
trabalho comunitário é uma sanção mais dura do que
uma multa, a verdade é que o trabalho comunitário
não é aplicado regularmente como pena ao comum dos
cidadãos nas mesmas condições de Luisão. Trata-se,
portanto, de um tratamento de excepção. E a pior
coisa que pode acontecer à Justiça é tornar-se
suspeita de ter dois pesos e duas medidas.
Porque aceitou, então?
Para nos ficarmos por casos da Justiça, vejamos o do
procurador-geral da República. Declarou aos
deputados, com a maior tranquilidade, não ter a
menor ideia de como fazer cumprir o segredo de
Justiça. Acha difícil, seja qual for a lei, e
parece-lhe que tudo vai ficar como está. Parte,
portanto, derrotado e conformado, o que já seria
mau, tratando-se de quem se trata e tendo acabado de
chegar. Pior ainda é dizer ao mundo alegremente que,
competindo-lhe zelar pelo cumprimento da lei, não
sabe como fazê-lo. Então, porque aceitou o cargo?