Expresso - 20
Jan 07
Flexigurança, fiscalidade e competitividade
Nicolau Santos
Precisamos de tomar decisões que levem investidores
e quadros técnicos a olhar para Portugal
Os trabalhadores alemães aceitaram flexibilizar
horários para travar a deslocalização. E nós?
1 Na Alemanha, país conhecido por muitas virtudes
mas não necessariamente pela sua flexibilidade
laboral, patronato e trabalhadores da indústria
metalomecânica, colocados perante o problema da
deslocalização de empresas para o Leste e continente
asiático, chegaram a um vasto acordo, que envolve o
IG Metall, o mais poderoso sindicato germânico.
Assim, os trabalhadores aceitam flexibilizar os
horários laborais, incluindo sábados e domingos,
como forma de responder a picos de trabalho das
empresas, já que a par da excelência dos produtos,
os prazos de entrega são cada vez mais um
factor-chave para ganhar encomendas e clientes. Em
contrapartida, as empresas não deslocalizam a
produção.
A regra é, pois, uma enorme mobilidade dos
trabalhadores em relação ao horário, tendo como
contrapartida mecanismos de compensação e segurança,
suportados em parte pela empresa e em parte pelo
Estado. E os trabalhadores ou utilizam como férias
as horas a mais que trabalharam nos picos das
encomendas ou recebem o dinheiro.
Exemplos semelhantes começam a fazer caminho um
pouco por toda a Europa, sob o chapéu da chamada
flexigurança, conceito que em Portugal foi
liminarmente rejeitado pela CGTP, ao passo que João
Proença, da UGT, considera-o interessante e aceita
discuti-lo.
2 Por muito que não queiramos, a globalização
confronta-nos hoje com a necessidade de baixar
alguns dos nossos padrões sociais e laborais,
esperando que os dos países asiáticos subam em
relação ao ponto em que se encontram.
Até lá, contudo, é fundamental encontrar formas que
tornem Portugal um país atractivo para investir e
criar postos de trabalho e riqueza. Aplicar o
conceito de flexigurança é uma delas. Outra é descer
drasticamente e de uma só vez o nosso nível de
fiscalidade, não só para as empresas (10% de taxa
máxima), como para os cidadãos, porque os sinais a
que se assistem são inquietantes: empresas que
anunciam a deslocalização da sede para Espanha por
razões fiscais, quadros médios e superiores que
emigram pelas mesmas razões.
É fundamental que se perceba que precisamos de tomar
decisões que nos distingam no concerto mundial e que
levem investidores, técnicos qualificados, quadros
médios e superiores, investigadores a 1) ser
obrigados a olhar para Portugal; 2) serem levados a
pensar que vale a pena apostar no país. A
flexigurança e a descida drástica da fiscalidade são
duas decisões que nos tornam muito mais
competitivos.
Trabalhar no Metro
O leitor quer ter até 36 dias úteis de férias? E
nenhuma forma de polivalência nas suas funções?
Deseja um período de trabalho com horas fixas de
entrada e saída? E um regime complementar de doença
em que ganha tanto se ficar em casa como se estiver
a trabalhar?
Se quer, não precisa procurar noutro país. Esta
empresa-maravilha funciona em Portugal. Basta-lhe
dirigir-se ao Metropolitano de Lisboa e pedir
emprego.
A questão é saber como é possível que uma empresa
que acumula prejuízos disponibilize aos seus
trabalhadores uma tão ampla gama de regalias e
demonstre uma tão reduzida exigência? Como é
possível que o número médio de horas de condução por
maquinista seja em Lisboa de 3,3 horas, em Londres
de 5,6 a 6,25 horas e em Madrid de 5,2 a 6 horas? A
resposta é só uma: foram os sucessivos conselhos de
administração que fizeram cedências atrás de
cedências para comprar a paz social, perante a
complacência de sucessivos Governos, igualmente
interessados em não comprar conflitos.
Só que não é possível continuar por este caminho -
porque é imoral e porque não é esse sinal de
facilidade que deve ser passado às pessoas. Por
isso, faz bem a administração do Metro em querer
moralizar esta situação. E faz bem a secretária de
Estado dos Transportes em apoiar essa posição. São
eles que têm razão. E quando assim é, há que
bater-se por ela até ao fim - mesmo que isso custe
sucessivas greves.