Diário de Notícias -
20
Jan 07
Decisão do
tribunal provoca guerra nas magistraturas
Carlos Rodrigues
Lima, Licínio Lima
e Rute Araújo
É uma iniciativa nunca antes vista: juízes e
procuradores querem assinar um pedido de habeas
corpus relativo a um cidadão condenado a
uma pena de prisão efectiva por um tribunal. O caso
de E., cujo pai adoptivo, o sargento Luís Gomes, foi
setenciado a seis anos de cadeia por um crime de
sequestro, está a dividir as magistraturas
portugueses.
Ontem, a Associação Sindical dos Juízes Portugueses
(ASJP) emitiu um comunicado a dizer que o caso está
a ser alvo de manipulação pelos media. Mas nem todos
pensam da mesma forma. Em declarações ao DN,
Fernando Silva, professor de Direito Penal e autor
do pedido de habeas corpus que será entregue
no Supremo Tribunal de Justiça, na terça-feira,
afirma que são vários os magistrados que o têm
contactado para assinar o documento.
"Muitos magistrados querem assinar, mas têm dúvidas
sobre se o seu estatuto lhes permite aderir",
afirma. Entre os milhares de subscritores está Maia
Neto, que integra o quadro de magistrados do MP no
Tribunal de Família e Menores do Porto. O procurador
admitiu ao DN ter assinado o documento "por ser um
instrumento jurídico mais expedito que o recurso.
Entendo que a criança precisa de uma clarificação
sobre a sua situação", justificou. O documento conta
ainda com a assinatura da procuradora Dulce Rocha.
Mas, para a ASJP, este caso está a ser tratado pelos
media de forma "não inteiramente verdadeira",
frisando que a opinião pública tem direito a "bases
factuais verdadeiras para poder formular um juízo
esclarecido e livre de manipulações".
A entidade sindical diz esperar que, no fim,
prevaleça o superior interesse da criança. "O que
esteve em discussão no julgamento de Torres Novas
foi apenas o comportamento criminal de Luís Gomes e
não a regulação do poder paternal", lembra.
Questionado o presidente da ASJP sobre se as
decisões judiciais até agora proferidas salvaguardam
esses interesses, António Martins respondeu ao DN:
"Quando há a disputa de uma criança, os seus
superiores interesses são sempre afectados." Em seu
entender, "estamos perante um sensível caso judicial
e humano".
A ASJP apela também para que "a comunicação social e
as autoridades públicas saibam distinguir, de forma
responsável, os aspectos jurídicos do caso e as suas
envolventes humanas". Para António Martins, "as
posições apaixonadas podem ofuscar a verdade".