Público - 21
Jan 07
UM INQUÉRITO
Vasco Pulido Valente
Com "aval" do Ministério da Saúde e do Ministério da
Educação, o Instituto da Droga e da
Toxicodependência, na pessoa da dra. Fernanda Feijão
resolveu fazer um inquérito a mais de 100.000
jovens, dos 11 aos dezoito anos, sobre a "violência
doméstica". Não sobre a violência doméstica em
geral; sobre a violência doméstica a que assistem
(ou não) em sua própria casa. Cinco perguntas,
citadas no Expresso, para exemplificar: "O teu pai,
ou substituto, insulta (a sós ou na presença de
outra pessoa a tua mãe?"; "...bate (dá pontapés,
murros, puxa os cabelos, etc.) à tua mãe";
"...impede-a de falar ou de estar com familiares e
amigos?"; "...obriga-a a fazer vida sexual com ele
contra a vontade dela?"; "...impede a tua mãe de ter
acesso ao dinheiro?". O inquérito é, em princípio,
"voluntário" e "confidencial". Mas nós sabemos o que
é "voluntário" para uma criança e mesmo para um
"adolescente" e, como a dra. Feijão distribuiu o a
sua minuciosa devassa por centenas de escolas,
sabemos também que não custará identificar quem
respondeu o quê a quê.
A reacção a esta monstruosidade foi inconcebível e
muito portuguesa. O filósofo José Gil acha a ideia
um pouco "esquisita" (como pode um miúdo ou miúda de
12 anos ter "acesso à vida sexual dos pais?). José
Gameiro, um psiquiatra, não acredita na
"fiabilidade" dos resultados (que parte haverá de
"fantasia", por exemplo, na opinião de um
adolescente?). E por aí fora, sem um sobressalto. A
dra. Feijão, com grande superioridade burocrática,
considera o inquérito "rigorosamente equilibrado e
sereno" e as críticas que lhe fizeram "uma
tempestade num copo de água". Só, para honra dele, o
pediatra Mário Cordeiro declarou a coisa eticamente
"bárbara".
Ou seja, com uma excepção, ao fim de trinta anos de
presumível democracia, o governo, um instituto
público, dezenas de altos funcionários, professores
pagos pelo Estado e peritos vários não perceberam
ainda que não se deve pôr um filho (ou uma filha) a
espiar e a denunciar os pais, seja de que modo ou
sob que pretexto for; e que a perversidade dos meios
nunca é justificada pela eventual bondade de uma
causa. A dra. Feijão, com a mais tranquila
consciência e a explícita concordância dos seus
superiores, mostrou claramente a natureza da
ortodoxia vigente. Os meninos da Juventude
Hitleriana e dos Pioneiros de Estaline eram, no seu
tempo, incitados a esta espécie de fiscalização
familiar. Na URSS, houve até um, que se tornou um
"herói" (com estátua) pelo zelo "patriótico" e
"socialista" com que fez fuzilar o pai. Quando
subirá Portugal a esse cume de humanidade e
civilização?