Correio da Manhã -
21
Jan 07
Opinião
As razões do meu NÃO
Luís Marques Mendes
A liberdade exige responsabilidade. Neste caso, a
responsabilidade de respeitar um princípio
fundamental, consagrado na nossa Constituição.
É este o momento adequado para fundamentar a minha
posição pessoal sobre a questão que vai ser
submetida a referendo no próximo dia 11 de
Fevereiro.
Mantenho a posição que assumi em 1998: o aborto
provocado é, fora dos casos previstos na lei actual,
um acto arbitrário e injustificado que destrói um
ser humano.
É hoje inquestionável que o feto é membro da espécie
humana, sendo um ser humano único, irrepetível e
diferente de todos os outros. Como tal, merece
respeito e protecção.
É certo que se pode verificar um conflito de
interesses entre o seu direito à vida e o direito da
mulher à sua autonomia, princípio que também merece
o meu apoio. De facto, não se pode contestar o
direito da mulher a só conceber um filho se e quando
o desejar, usando da sua plena liberdade e
utilizando os métodos anticoncepcionais que
entender. Só que esta escolha tem de ser feita,
responsavelmente, antes da concepção livre de um
novo ser. Se a concepção não for livre mas resultar,
por exemplo, de violação, a lei já hoje admite, e
bem, a realização de um aborto.
Mas, fora das situações que a lei já consagra, o
direito da mulher à sua liberdade de escolha termina
quando começa o direito à vida de um novo ser
humano.
A liberdade exige responsabilidade. Neste caso, a
responsabilidade de respeitar um princípio
fundamental, consagrado na nossa Constituição: “A
vida humana é inviolável.” (artigo 24.º)
A legalização do aborto destrói um outro princípio
fundamental da ética: os fins não justificam os
meios. Ainda que a finalidade visada fosse resolver
um problema e fosse porventura aceitável, meios
intrinsecamente maus, sobretudo os que implicam a
destruição de vidas humanas, não podem ser
utilizados.
Na verdade, a vida humana individual não pode ser
considerada nunca um meio ou instrumento. É sempre
um fim em si mesma. É um valor superior a todos os
outros, anterior e superior à própria lei e ao
próprio Estado. A liberdade é certamente um valor
muito importante, mas tem um limite absoluto que é o
respeito pela vida dos outros seres humanos.
Não ignoro, é certo, o problema social que é o
aborto clandestino. Conheço-o e sou muito sensível a
esse drama. Penso, todavia, que esse mal, que já foi
reduzido em relação ao passado, se deve combater,
como todos os males sociais e económicos, com
medidas enérgicas, sociais, educativas e económicas.
Será o caso da protecção da natalidade e da família,
do planeamento familiar, da educação sexual dos
jovens ou do incentivo à adopção de crianças não
desejadas.
Sei bem que este é um discurso recorrente e que,
apesar disso, muito há ainda a fazer. E não
desconheço que, nesta matéria, todos os Governos têm
prometido muito e realizado pouco.
Mas, fora esta responsabilidade que todos devemos
partilhar, a questão central é esta: numa correcta
hierarquia de valores a escolha só pode ser defender
a vida, não destrui-la.
E não se diga que esta é uma tarefa difícil.
Também é difícil combater a corrupção, mas
combatêmo-la. Não a legalizamos.
Também é difícil combater o tráfico de droga, mas
combatêmo-lo. Não o legalizamos.
O mal combate-se. Não se legaliza. Por maioria de
razão, quando o bem a defender é uma vida humana.
Apesar de não haver em Portugal qualquer mulher
presa pela prática de aborto, o argumento da prisão
é reiteradamente esgrimido. Também aqui quero ser
claro. Não concordo com aqueles que parecem querer
confinar a legitimidade do Direito à sua eficácia
absoluta, nem reduzo o Direito Penal à sua função
repressiva. Ele tem uma função preventiva,
dissuasora e, sobretudo, delimita fronteiras entre o
que é ou não é lícito. Esta fronteira é essencial.
Sem ela, corremos o risco de construir uma sociedade
sem regras e sem valores.
Coisa diferente é saber se, nestes casos, a pena de
prisão é correcta.
Não fujo, também, a esta questão e repito o que já
antes afirmei: não sou favorável à pena de prisão
para a mulher que decide abortar, seja antes ou
depois das 10 semanas de gravidez. O que acho
absolutamente incongruente na questão que está em
referendo é que, até às 10 semanas, se afaste
qualquer forma de penalização e que, às 10 semanas e
um dia, se aplique a pena de prisão.
Para mim, a liberalização do aborto pode ter
consequências graves. Promovendo-a, ela torna-se,
como sublinhou um deputado do PS no debate de 1997,
“um mecanismo de desresponsabilização social”.
Consagrando-a, ela traduzirá um sinal de facilidade,
não uma ideia de responsabilidade.
Aprovando-a, estaremos a inverter as prioridades.
Temos de nos preocupar em incentivar a natalidade,
para combater o envelhecimento da população. Ao
contrário, estamos a promover o aborto, instrumento
de destruição de uma nova vida.
Em vez de ser um sinal de modernidade, como alguns
dizem, ela pode ser um retrocesso cultural.
Uma sociedade moderna e responsável constrói-se com
referências, valores e prioridades. É esta a minha
convicção.
Por isso, votarei ‘não’ no referendo.