Diário de Notícias -
22
Jan 07
O aborto, a
angústia e os direitos
João César das
Neves
Nos debates sobre o aborto, os argumentos invocados
são uma multiplicidade impressionante. Fala--se de
tribunais e maternidades, clínicas espanholas e
classes sociais, prisões, embriões, semanas,
impostos e decretos-leis. No meio de assuntos tão
variados, apresentados de forma tão intensa, é fácil
perder de vista o essencial.
Ninguém duvida que a questão do aborto cruza
problemas distintos.
Mas ele nasce de um dilema muito simples, e muito
doloroso, situado no seu núcleo essencial. É esse
dilema que gera a enorme dificuldade da questão e
motiva o debate tão decisivo e apaixonado. Todos os
outros aspectos e pormenores perdem o valor perante
esta dualidade elementar.
Na questão do aborto voluntário verifica-se a
contraposição entre dois valores básicos e
fundamentais: o direito à liberdade da mãe e o
direito à vida do embrião. Aliás, os próprios
movimentos que se opõem manifestam isto mesmo, ao
denominarem-se respectivamente "pela escolha" e
"pela vida". Assim, a resposta à pergunta do
referendo apresenta-se de forma cortante. Quem acha
que a liberdade da mulher para determinar a sua vida
e o seu corpo é essencial deve votar "sim". Quem
pensa que o direito à vida do embrião é dominante
deve votar "não".
Ninguém duvida que cada um destes direitos
representa algo de essencial na dignidade humana. O
específico no debate do aborto é que cada um deles,
sendo fundamental, se opõe ao outro que é igualmente
fundamental. Assim, de certa maneira, ao defender um
se está implicitamente a menosprezar o outro. Isto é
que torna a questão tão angustiante. A sua
dificuldade vem precisamente deste custo:
secundarizar e diminuir algo de vital ao proclamar
um aspecto também vital.
Ter consciência deste custo ajuda, não só a ver a
importância da questão, mas também a entender e,
talvez, a respeitar os adversários. Eles lutam por
um valor que não podemos deixar de reconhecer.
Percebe-se também que, dada a dificuldade do dilema,
tanta gente procure escamotear a questão levando-a
para campos acessórios. Mas a verdade irredutível é
que o problema mantém sempre toda a sua dolorosa
acuidade: dois direitos básicos opõem-se quando uma
mulher contempla abortar o filho que gerou.
Todos os outros elementos e argumentos, dos traumas
pós-aborto aos riscos para a saúde pública, das
razões sócio-económicas à constitucionalidade da
lei, só ganham significado na solução deste dilema
central. Que interessa o défice do orçamento perante
os riscos da liberdade individual? Que significam os
inconvenientes pessoais face a uma vida humana em
risco?
Mas, como vimos, o peso de cada um desses valores
mede-se no confronto com o outro. Essa é a gritante
dificuldade. Quem vota "sim" tem de estar preparado
para levar a sua defesa da liberdade da mulher a
ponto de se sobrepor à vida do filho em gestação.
Deve votar "não" quem acha que a vida do embrião tem
um valor tão grande que chega para sacrificar a
liberdade da sua mãe em definir o seu futuro num
momento tão doloroso. Um "sim" está pronto a
destruir uma vida e um "não" prepara-se para
restringir uma liberdade pessoal fundamental. Este é
o profundo dramatismo do dilema. Não há volta a
dar-lhe: é preciso escolher uma resposta e ela,
qualquer que seja, tem sempre implicações terríveis.
Não admira também que tanta gente opte pela
abstenção. Mas a fuga nada resolve e o dilema
mantém-se mesmo para os que não olham. Por outro
lado, quem diz que a lei deve deixar uma questão tão
importante à decisão de cada um abre
involuntariamente a porta a potenciais atrocidades.
No fundo, os primeiros votam "não" sem querer, pois
a abstenção favorece o quadro vigente, enquanto os
segundos ambiguamente concordam com o "sim", e ambos
de forma passiva. Nunca se esqueça de que o regime
nazi se afirmou perante a abstenção de uns e a
demissão de outros.
Este é o dilema elementar do referendo. Mas existe
um detalhe que rompe o paralelismo: os dois lados
não se colocam igualmente perante estes termos. Os
defensores do "não" assumem o sofrimento das mães,
criando muitas instituições para o aliviar, enquanto
os do "sim" costumam escamotear a vida do embrião.
Isto só por si revela um facto indesmentível: postos
francamente em confronto, o valor da vida
sobrepõe-se naturalmente ao da liberdade. Sem
liberdade a vida resiste, mas sem vida não há nada.
Essa é a razão por que em todas as civilizações da
História o aborto provocado foi em geral sempre
repudiado