Público - 25
Jan 07
Provedor de Justiça abre processo sobre inquérito
feito pelo IDT a alunos
Bárbara Wong
Nascimento Rodrigues fala em perguntas de "notória
delicadeza", Sócrates admite
que "foi um erro"
O provedor de Justiça pediu esclarecimentos acerca
do inquérito sobre consumo de substâncias, realizado
pelo Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT),
que foi feito a milhares de estudantes de 860
escolas do básico e secundário e que incluía
perguntas relacionadas com violência doméstica.
No questionário há perguntas de "notória
delicadeza", diz o comunicado da provedoria.
Nascimento Rodrigues mandou abrir um processo.
O questionário, entregue a cem mil alunos dos 11 aos
18 anos, contém questões sobre os hábitos sexuais
dos pais dos estudantes. Entre outras coisas
pretende saber se o pai ou substituto "dá pontapés,
murros, puxa cabelos" à mãe, "impede-a de falar ou
de estar com familiares ou amigos" ou "obriga a
fazer vida sexual com ele contra a vontade dela".
Ontem, durante o debate mensal no Parlamento, o
primeiro-ministro reconheceu que o questionário "foi
um erro". "No meu ponto de vista, é um inquérito que
não faz sentido", declarou José Sócrates,
sublinhando que o Ministério da Saúde já abriu um
processo de averiguação interna, noticia a Lusa.
O provedor, por seu lado, põe em causa a
"legitimidade deste procedimento". E pergunta ao IDT
em que medida o inquérito se insere nas suas
competências legais e como é que o projecto foi
apresentado aos alunos.
Nascimento Rodrigues quer ainda saber se foi pedida
aprovação prévia à Comissão Nacional de Protecção de
Dados, aos ministros da Saúde e da Educação. E se as
questões feitas aos estudantes foram preparadas por
especialistas, de modo a "não violar o direito à
reserva da intimidade da vida privada e familiar". O
IDT já "assumiu por inteiro a responsabilidade" e
lamentou a "perturbação causada".
O instituto lembra que o inquérito foi "anónimo e
confidencial", semelhante a outro em 2001, mas já
iniciou um processo interno para apurar
responsabilidades. Anteontem, o Ministério da
Educação garantiu em comunicado que "não deu a sua
chancela à versão final do inquérito".