Público -
29
Jan 07
Dados de 2005
Uma portuguesa em cada quatro optou pela licença
por maternidade de cinco meses
Andreia Sanches
Portugal paga ao nível dos países mais generosos,
mas fica aquém no período de tempo que dá às
mulheres para ficar em casa com os bebés
Um quarto das portuguesas que em 2005 foram mães e
cumpriam os requisitos para usufruir de uma licença
por maternidade optou pela versão mais longa: cinco
meses, ao longo dos quais foi possível receber o
equivalente a cerca de 80 por cento do salário.
"É uma minoria, mas existe. E provavelmente se
fôssemos até aos seis meses estas mulheres gostariam
de ficar em casa mesmo que ganhassem menos. O facto
de serem já 25 por cento revela que essa ideia é
bastante forte", diz Karin Wall, socióloga do
Instituto de Ciências Sociais, da Universidade de
Lisboa.
"Os estudos mostram que é positivo a criança ficar
entre seis a 12 meses em casa, com os pais. Mas
desse ponto de vista estamos um bocadinho aquém",
continua a autora do capítulo sobre Portugal num
relatório da International Network on Leave Policy
and Research - uma rede de investigadores de 22
países que analisa as políticas seguidas em matéria
de licenças parentais.
A licença por maternidade paga está instituída em
quase todos os países considerados (os EUA são uma
das excepções) e na maior parte dos casos tem a
duração de 14 a 20 semanas. Nem sempre é obrigatória
- como é na Alemanha, em Itália ou Portugal - nem
universal (em Portugal só tem subsídio quem tiver
contribuído para a segurança social mas na
Finlândia, por exemplo, existem apoios para mães que
estão fora do mercado de trabalho).
De país para país difere a duração da licença por
maternidade, a flexibilidade com que pode ser usada
e até o nome. E em muitos casos há um conjunto de
outras licenças, reduções de horários de trabalho,
justificação de faltas para acompanhamento dos
bebés... Há Estados que apostaram na expansão das
creches e outros que não foram por aí e preferiram
desenvolver longas licenças para as mães ficarem em
casa mais tempo. O relatório da rede de
especialistas permite fazer algumas comparações.
Em Portugal, foi em 2004 que se abriu a
possibilidade de a licença por maternidade ter a
duração de cinco meses, pagos a 80 por cento do
salário de referência, como alternativa a um período
de quatro meses remunerados a 100 por cento.
Aposta na partilha
entre homens e mulheres
A lei introduziu ainda uma originalidade partilhada
com Espanha: as primeiras seis semanas têm de ser
gozadas pela mãe, mas as restantes podem sê-lo pelo
homem, se for isso o acordado pelo casal. É certo
que 421 portugueses que foram pais em 2005
partilharam com a mãe dos filhos a licença por
maternidade. Mas, diz Wall, "tem havido e continua a
haver um esforço para associar a política da
igualdade de género à política de licenças".
A socióloga identifica cinco grandes modelos de
licenças na Europa e diz que o que é considerado
mais moderno é o dos países escandinavos. Desde logo
porque "se baseia num investimento mais forte do
ponto de vista do Estado". É "o modelo da licença de
um ano orientado para a igualdade de género".
Na Suécia, a licença inicial é de 12 meses pagos a
80 por cento do salário; na Dinamarca são 10 meses
pagos a 100 por cento; na Islândia são nove, pagos a
80 por cento. Aqui, "a ideia da licença por
maternidade quase desaparece". Há um período em que
a mulher é obrigada a ficar em casa (seis, oito
semanas) "e o resto chama-se licença parental e pode
ser gozada tanto pelo pai como pela mãe", sendo que
o pai tem sempre de usar pelo menos a sua quota.
"Estes países têm das taxas de fecundidade mais
elevadas da Europa", sublinha. Na Islândia ela é de
2,05 filhos por mulher; na Dinamarca de 1,8; na
Suécia de 1,6. E em qualquer um dos casos tem
subido, ao arrepio do que se passa numa Europa em
processo de envelhecimento progressivo.
Objectivo devia ser
"mais ambicioso"
Como se situa Portugal em relação aos mais generosos
e bem sucedidos em matéria de natalidade? Com uma
média de 1,4 filhos por mulher em 2005, o país não
encaixa bem em nenhum dos modelos, diz Wall.
Com os "mais modernos" o modelo português - que
poderia ser baptizado como "o do regresso rápido ao
trabalho a tempo inteiro" - partilha a preocupação
da partilha entre homens e mulheres. E de oferecer
licenças de maternidade bem pagas (a 80 ou 100 por
cento). Contudo, as licenças são mais curtas do que
nesses países. Ou seja, "do ponto de vista da
generosidade estamos aquém dos países mais generosos
e com modelos mais favoráveis à família".
Por outro lado, se tem havido expansão dos serviços
de apoio à família, há um visível desfasamento entre
a taxa de cobertura de creches para miúdos até aos
três anos de idade observada em Portugal (23 por
cento) e os 64 por cento registados na Dinamarca.
É certo que há o compromisso de continuar a investir
nestes equipamentos. Mas Karin Wall não tem dúvidas:
"Devia haver um objectivo um bocadinho mais
ambicioso" ao nível das licenças. "Portugal tem
quatro meses de licença [de maternidade] a cem por
cento, na Alemanha ela é agora de oito meses, na
Dinamarca de 10... Para se aproximar de um modelo
mais avançado, teria de investir um pouco. Numa
época de restrição o objectivo podia ser só mais um
mês."
Os pais poderiam assim utilizar "os cinco meses de
licença pagos a cem por cento, ou quatro meses a cem
por cento mais dois a 50 por cento, ou quatro a cem
por cento mais três a 33 por cento...". E isto
aproximava o país de algo que Wall considera
fundamental: a possibilidade de escolha, "a
possibilidade de quem quer ficar em casa mais tempo
com os filhos poder fazê-lo" sem que para isso seja
necessário ter recursos económicos muito elevados.