Diário de Notícias -
29
Jan 07
"A vida concebida jamais será vencida"
"Manifestação de cidadania"
Susete Francisco
"Somos um/somos dois/somos três/somos milhões/somos
muitos a gritar não." Não foram milhões, mas foram
milhares - oito a nove mil pelas contas da polícia,
embora a organização tenha apontado 20 mil - os
defensores do "não" no referendo de 11 de Fevereiro
que se juntaram ontem numa Caminhada pela Vida nas
ruas de Lisboa. Duas horas a pé, entre a Maternidade
Alfredo da Costa e a Alameda, ao som de tantos
slogans quantas as associações e organizações que se
juntaram à marcha.
"Estes são os filhos da Nação/ crianças por
nascer/ansiosos por viver/uma nova geração." Ao
cântico que ia sendo entoado num trajecto que a
organização dividiu por etapas - concepção,
nascimento, infância, adolescência, juventude, idade
adulta e idade dos avós - juntaram-se centenas de
cartazes. Uma só mensagem, versões para todos os
gostos: "Pela Vida, com Amor"; "Abortar por opção
quando bate um coração? Não"; "Já fui embrião, agora
ancião"; "Obrigado mãe, por ter nascido". E, numa
caminhada que contou com a presença de inúmeras
crianças, as vozes sempre a acompanhar, mesmo com
ecos de outras marchas - "A vida concebida jamais
será vencida!"
Encabeçada por nomes como Maria José Nogueira Pinto,
o ex- -ministro das Finanças Bagão Félix, a fadista
Kátia Guerreiro ou José Ribeiro e Castro (líder do
CDS, partido que contou uma forte representação na
marcha), contando com a presença de Aguiar Branco
(deputado do PSD), Matilde Sousa Franco (deputada do
PS), os centristas Luís Nobre Guedes e Paulo Portas,
ou D. Duarte, foi a outros protagonistas que a
caminhada deu voz, num palco montado na Alameda. Em
defesa de uma "causa sem fim", sustentou então
Margarida Neto, da Plataforma Não Obrigada: "Na
vitória de 98 fizemos história, a partir de então
foi uma bola de neve. Multiplicaram--se obras e
instituições dispostas a lutar pela defesa da vida,
somos hoje uma multidão de amigos, unidos pela mesma
causa." Também defendida pela espanhola Esperanza,
que há 12 anos sofreu um "aborto provocado": "Temos
direito a que nos informem, temos direito a que nos
dêem alternativas porque não queremos abortar." Pelo
palco passaram também representantes de movimentos
contra o aborto em França e Itália. "Nós, franceses,
não desejamos que Portugal sofra uma catástrofe
semelhante à que França tem sofrido", diria o
francês George Martin, da associação Droit de Naître.
"Roguemos à Virgem de Fátima que proteja este país e
não permita que seja levado a apoiar uma cultura de
morte", acrescentaria ainda, antes de defender que
"o direito à vida é um direito natural, anterior ao
Estado, consagrado no mandamento "Não matarás".
Longe deste argumentário, Maria José Nogueira Pinto
definiu a Caminhada pela Vida como uma "manifestação
de cidadania que prova que a questão não é
partidária, nem religiosa, é uma questão de
sociedade". Uma "expressão de autenticidade e união
em defesa do valor da vida", defendeu Bagão Félix,
enquanto Ribeiro e Castro destacou a marcha como a
prova da "vitalidade dos valores da vida e da
família".
Entre os muitos anónimos que percorreram as ruas de
Lisboa, Joana Monteiro, 23 anos, diz ter-se juntado
à caminhada por defender que o "aborto não pode ser
uma alternativa" - "Está a passar uma mensagem
errada de que o aborto é uma opção igual às outras.
Não é. E a solução para o que é clandestino não pode
ser a legalização."