Diário de Notícias -
29
Jan 07
Dizer não à irresponsabilidade
João César das Neves
Muitas pessoas votarão "sim" no próximo referendo do
aborto só pela esperança de arrumar a questão de
vez. No labirinto de manipulações, falácias e
enganos em que este debate se tornou, esta é uma das
ilusões mais amargas.
Ninguém tem dúvidas de que tratamos de uma questão
que o País não quer tratar. A esmagadora abstenção
no primeiro referendo em 1998 (68%) mostrou-o à
saciedade e a apatia recente confirma-o. Trata-se de
um problema que uma elite caprichosamente impõe à
população, mergulhada numa conjuntura complexa,
difícil e exigente.
Um punhado de forças políticas convenceu-se de que
liberalizar o aborto constitui um imperativo de
civilização e afirmou estar disposto a levantar
sucessivamente esta exigência até que o País esteja
de acordo consigo (ou, em certos meios mais
extremistas, a forçá-lo na lei, mesmo que o povo se
atreva a não concordar). Assim, espera-se que
existam referendos até o resultado ser "sim", e que
depois não haja mais nenhum.
O comodismo é uma das forças mais poderosas em
Portugal. Perante este desinteresse da maioria do
País, uma das opiniões que mais contarão no próximo
dia 11 é a que afirma que o melhor é votar "sim"
para ver se se acaba com isto e nos deixam dedicar
ao que importa. Esta visão, extremamente atraente,
não passa de uma das maiores tolices que têm surgido
numa discussão cheia delas. De facto, a realidade é
precisamente a oposta.
Se o "não ao aborto livre" vencer no dia 11 de
Fevereiro, existe uma forte possibilidade de que a
questão política fique resolvida. Duas derrotas
sucessivas fazem hesitar até o fanático mais
ardente. Os militantes histéricos quererão repetir a
proeza, mas as forças sérias terão muitas dúvidas em
arriscar terceira derrota. Além de que o clima
internacional sobre o aborto está a mudar
lentamente, e essa vitória da vida e
responsabilidade em Portugal seria mais um passo na
evolução. Tem de dizer--se que uma terceira
tentativa para liberalizar o aborto entre nós é
bastante improvável.
Pelo contrário, se o "sim" vencer, o aborto promete
nunca mais deixar a actualidade mediática.
A razão principal não viria do lado partidário,
aliás por razões semelhantes às invocadas no caso
inverso. Embora se deva dizer que, com um empate
entre os dois referendos, ambos certamente não
vinculativos, seria muito mais provável existir um
terceiro. Mas seria sobretudo a partir da vida real
que o problema viria assombrar a política. Sobretudo
no sector da saúde.
A primeira coisa que se passaria, se o "sim"
eventualmente ganhasse, seria a manifestação do
embuste da pergunta. Embora se fale de "despenalização",
nada no sector penal ou judicial se veria
modificado. Toda a frenética actividade daquilo que
seria a real liberalização do aborto situar-se-ia
nos hospitais.
Mas a liberalização está longe de ser garantida pela
simples despenalização legal. O Código Deontológico
da Ordem dos Médicos, para não falar do plurimilenar
Juramento de Hipócrates, afirma que "constituem
falta deontológica grave quer a prática do aborto
quer a prática da eutanásia" (art. 47.º). Como
poderão então médicos executar a imposição legal?
Apareceria artificialmente uma nova luta intensa no
meio hospitalar, que certamente não precisa de mais
problemas.
Alguns dizem que esse documento vai ser revisto. Mas
que devemos pensar de uma classe que muda as suas
regras éticas ao sabor das votações e das modas
culturais? Mais importante, como se pode entender
que alguém que dedicou a vida à saúde dos outros,
que estudou durante anos para ser agente da luta
contra a dor e a doença, aceite uma carreira a fazer
abortos? Como entender que os hospitais, centros de
vida e saúde, passem a ser locais de morte
higiénica?
O embate seria certamente muito doloroso. Haveria
médicos suspensos por objecção de consciência,
zangas entre serviços e direcções hospitalares,
discussões entre colegas. Isto para não falar das
manifestações e dos aproveitamentos políticos. Nunca
se deve esquecer que nos EUA e em alguns países
europeus, onde a liberalização não foi feita por
referendos, nunca mais houve paz desde que ela foi
imposta. Em Portugal, depois de debate tão
acalorado, a sua eventual implantação criaria
problemas muito depois de 2007.
Este é portanto um caso feliz em que, se Portugal
seguir a sua consciência e valores tradicionais,
também evita muitas zangas e dolorosas soluções. O
único voto que arruma a questão é dizer não à
tentação facilitista.