Correio da Manhã -
29
Jan 07
Opinião
Nenhuma vida é demais
Paulo Portas / Adriano
Moreira / Ribeiro e Castro
1.Humanistas, celebramos a vida como o primeiro de
todos os direitos humanos. Personalistas,
acreditamos numa civilização e numa cultura em que a
liberdade de decidir não elimina a liberdade de
existir, o direito de ser.
Sabemos que existe vida humana antes do nascimento.
Sabemos que cada vida é, já nesse estádio, real e
sensível, singular e própria, única e irrepetível.
Nunca houve pessoa assim, nunca haverá outra como
essa. Cada um é cada um.
Conhecemos os progressos técnicos e científicos que
têm vindo a revelar cada vez mais pormenores desta
realidade inegável, enriquecendo o conhecimento
empírico e tornando-o acessível a todos.
Defendemos esta orientação ética e política com
humanidade e compreensão, sem recriminações. Para
nós, o aborto é uma questão de valores humanos e de
direitos fundamentais, de valores sociais por
conseguinte. Um domínio em que a lei deve realizar a
sua função mais nobre de defesa dos mais frágeis,
dos mais fracos, dos mais vulneráveis. E também uma
questão de políticas públicas que, ao mesmo tempo,
previnam, a montante, o aborto clandestino e
assegurem a indispensável informação e acção social
junto das situações de risco ou de maior carência.
2.Pretende legalizar-se o aborto em todas e
quaisquer circunstâncias até às dez semanas, isto é,
até aos dois meses e meio de gravidez. Somos contra
esta proposta de liberalização total do aborto.
A actual lei, fazendo uma ponderação jurídica de
conflitos de interesses e valores, já despenaliza o
aborto em certos casos, especialmente atendíveis,
sob indicação médica, como a malformação do feto, a
violação ou o risco para a saúde física ou psíquica
ou da vida da mãe. Enquanto a nova proposta em
referendo sacrifica a vida ao arbítrio; e de facto
deixa de considerar a vida como um valor. A
diferença, agora, está em passar a considerar o
aborto no quadro da saúde sexual e reprodutiva,
equiparando-o a meio contraceptivo.
Diversamente do que outros dizem, de forma enganosa,
não se trata de alargar as excepções da lei actual.
Trata-se de acabar com todas e quaisquer excepções
até às dez semanas. Trata-se de introduzir na ordem
jurídica o direito ao aborto livre até aos dois
meses e meio de gestação. É uma proposta sem
equilíbrio, nem moderação.
3. Este referendo convoca de novo as
responsabilidades do Estado que, vinculado à
protecção da vida pela Constituição, não pode
demitir-se dos seus deveres de solidariedade real
com as famílias em geral e das que passam pelo drama
humano e social do aborto. A criança é, desde a
concepção, como diria Hannah Arendt, o anúncio de um
estrangeiro que vai chegar e que a comunidade tem o
dever de acolher e integrar; e, por isso, compete ao
Estado garantir o acolhimento sem validar qualquer
escusa pública que induza ao desespero maternal e
familiar.
A resposta está em combater as causas efectivas do
aborto clandestino, na protecção da maternidade e da
paternidade, no planeamento familiar, na educação,
na informação pública, na diminuição e eliminação da
pobreza, na intensificação e melhoria das políticas
familiares, na humanização da Justiça, no apoio
determinado a instituições de acção social como os
centros de apoio à vida ou outras obras de apoio à
maternidade e à infância em situações de risco ou
especial carência.
Neste terreno axial da Ética e do Direito, o Estado
não deve emitir os sinais errados à sociedade civil,
traindo os imperativos da solidariedade social,
desleixando as políticas familiares e fraquejando na
acção social directa nas situações de maior
vulnerabilidade. E é ainda seu dever o combate
contínuo à desinformação e à persistência de níveis
anacrónicos de falta de esclarecimento, informando a
opinião pública da impressiva realidade da vida
humana antes do nascimento, na linha dos avanços da
ciência, e democratizando as descobertas e o extenso
conhecimento que torna acessível a todos.
4.Este referendo não é uma opção entre direita e
esquerda, entre católicos e ateus, entre novos ou
velhos, entre mulheres ou homens. Não é partidário,
nem é clerical. Não interessa mais a certas
categorias de portugueses do que a outras. Este
referendo convoca todas as consciências,
interrogando-nos e desafiando-nos no plano dos
valores essenciais da pessoa humana.
Revemo-nos na atitude cívica, generosa, dos
movimentos que se organizaram em defesa da vida e
reconhecemos a sua liderança social.
Este referendo provocará um avanço de civilização,
se der protecção à vida, ou um retrocesso de
civilização, se banalizar a sua eliminação. Em
defesa do direito à vida, votamos ‘não’ no próximo
dia 11 de Fevereiro.
Lisboa, 29 de Janeiro de 2007