Público - 16 Jan 08
Despenalização do fumo e do aborto
Catarina Almeida
Enquanto o Governo proíbe o cigarro, permite e paga
o aborto
O Presidente da República Portuguesa convocou hoje o
referendo à despenalização do fumo em locais
públicos, depois de o Tribunal Constitucional se ter
pronunciado favoravelmente à pergunta: "Concorda com
a despenalização do fumo em locais públicos, se
realizado por opção do fumador maior de idade ou
emancipado?"
Desde 2008, conhecem-se 130 processos terminados,
com 344 arguidos (todos de baixos rendimentos) e 103
condenações. Segundo a análise feita pelos deputados
que requereram o referendo, a maioria dos fumadores
julgados tinha entre 35 e 50 anos e fumava por
prazer.
Conhece-se agora o primeiro movimento a favor da
despenalização, Sim, Fumamos! No documento
constitutivo do movimento, que reúne fumadores de
vários quadrantes políticos, partidários e
culturais, lê-se: "Os julgamentos de Lisboa, Coimbra
e Braga são exemplos da ineficácia da actual lei -
não evita que se fume e coloca os fumadores numa
posição desumana de penalização e humilhação."
Aquando da elaboração da lei, o Governo de Sócrates
afirmou ter em conta sobretudo a prevenção do
tabagismo, proibindo-o, protegendo assim a
sociedade, principalmente os cidadãos mais
vulneráveis. "É vergonhosa a condição a que nós,
fumadores, somos remetidos. Empurram-nos para a
barra do tribunal, abrindo espaço a que se criem
espaços privados de higiene e condições. Somos
actualmente vítimas do fumo do vão de escada e
sentimo-nos verdadeiros criminosos. No entanto,
aqueles que têm posses conseguem fumar sem ser
importunados."
Enquanto a actual lei se mantiver, acontecerão as
denúncias e, como consequência, a investigação
policial sobre fumadores e suas famílias. O
tabagismo clandestino é um flagelo e um problema de
saúde pública. A actual política de proibição impede
o SNS de ajudar os fumadores, prevenindo os seus
riscos através da educação para a saúde.
Talvez não cheguemos a ler esta notícia no ano de
2028. É, claro está, uma analogia aparentemente
exagerada e desproporcionada entre o aborto e a caça
aos fumadores.
Mas a verdade é que vivemos numa sociedade onde o
aborto não é penalizado em nome da liberdade
individual; ao mesmo tempo, vemos nos primeiros dias
de Janeiro notícias como "Três homens apanhados a
fumar pela polícia".
Que modelo de sociedade estamos a construir e,
sobretudo, o que significa para nós a liberdade?
Somos actualmente a sociedade do "sanitariamente
correcto", mesmo que não se olhe a medidas
despropositadas para impor ao indivíduo o que ele
pode ou não fazer. O critério da razoabilidade e da
intervenção mínima do Estado nas liberdades
individuais é preterido em função do padrão
uniformizador dos hábitos e das consciências.
Está patente aos olhos de todos que o tabagismo é um
problema actual e efectivo. O ataque às causas, a
prevenção e, sobretudo, a sua proibição são medidas
indiscutivelmente eficazes na luta contra uma das
maiores causas de mortalidade a nível mundial.
Porém, o mesmo raciocínio não serve já interesses
tão ou mais fundamentais como o valor da vida em si,
o valor da vida dos outros. Enquanto o Governo
proíbe o cigarro, permite e paga o aborto. Por
absurdo, uma grávida com menos de 10 semanas pode
ser punida por fumar, mas não o será se abortar o
seu filho.
O aborto é um flagelo a ser combatido. Há um ano
poderíamos acrescentar que até aqui estamos todos de
acordo. Mas não é verdade: um primeiro balanço da
aplicação da lei do aborto mostra-nos já, ainda a
quente, que a banalização do aborto é o resultado da
permissividade com que passámos a tratar a questão.
Portugal precisa de uma política de saúde
consistente e coerente: identificar os males,
combater as causas, fomentar as práticas que evitem
o flagelo, seja através da prevenção, seja através
do apoio às alternativas e, finalmente, proibir as
práticas prejudiciais, respeitando os valores de
liberdade em confronto.
Do tabagismo poderá recuperar-se o fumador, do
aborto nunca mais se recuperarão pelo menos duas
vítimas: a mãe e o seu filho. Ainda continuamos a
tempo de o evitar. Fumadora e ex-mandatária do Diz
Que Não