Diário de Notícias - 21 Jan 08
O tempo da política às avessas
João César das Neves
A política portuguesa anda ao contrário. O Governo é
atacado por medidas sérias e importantes, enquanto
os seus erros passam despercebidos ou até são
tratados como sucessos. Como já aconteceu no
passado, estamos presos numa rede de mal-entendidos.
A redução do défice, realização magna da
legislatura, foi em boa medida uma triste
oportunidade perdida. O efémero êxito deveu-se
sobretudo à opressão da economia com impostos e dos
funcionários com congelamentos de salário e
carreira, quase sem mudar a estrutura. Quando estes
expedientes forem levantados, como têm de ser, o
buraco regressa.
O pior do Governo é um traço autoritário com razões
higiénico-legalistas, escondido na apatia geral da
população. Da "tolerância zero" à lei do tabaco,
passando pela ASAE, DGCI e videovigilância, vivemos
numa sociedade cada vez mais controlada. A obsessão
regulamentar, ânsia inspectiva e corporativismo
clientelar criam um clima sufocante a que poucas
vozes reagem. Troca-se a liberdade pelo conforto.
Que seja um Executivo socialista a administrar esta
passividade burguesa é outro aspecto da política às
avessas.
Ao mesmo tempo, porém, os piores ataques ao Governo
vêm não de erros mas de medidas essenciais. São dois
os mal-entendidos que ensombram decisões difíceis,
corajosas e importantes.
O primeiro nasce da geografia e do inevitável
conflito entre a visão local e nacional. Nem sempre
de perto se vê melhor. É assim a co-incineração. O
fecho dos centros de saúde é outro exemplo recente.
Governos anteriores, por demagogia e populismo,
abriram serviços sem olhar a custos ou até
benefícios reais das populações. Qual o ganho de ter
um centro de saúde na aldeia, aberto 24 horas por
dia, só para enviar doentes ao hospital regional? Se
o custo dessa miríade de centros impedir um conjunto
adequado de especialistas nos tais hospitais
regionais, todos perdem.
A rede de cuidados de saúde, para servir o interesse
local, tem de ser planeada a nível nacional e
distribuir bem os recursos pelo território. É
verdade que essa decisão é sempre inquinada por
bairrismos e corporações. Como se viu no aeroporto
de Lisboa, estudos técnicos dão resultados conforme
a encomenda. Assim, muitos fechos de unidades podem
ser errados ou, pelo menos, discutíveis. Mas o
elemento central do debate vem, sem dúvida, do
confronto entre a miopia paroquial e a visão global.
Uma vez aberto um centro de saúde, fechá-lo
constitui uma afronta. Por isso se deve louvar o
Governo pela coragem de tentar.
A segunda confusão vem da História. É inevitável que
a mudança do mundo seja mais rápida que a das nossas
ideias e teorias. Aqui o exemplo determinante é a
reforma da Segurança Social. Esta geração anda muito
indignada com a enorme injustiça de receber menos
pensões que os pais. Mas ninguém fala na injustiça
muito maior de todos morrermos muito mais tarde que
eles. Porque foi esse colossal benefício que impôs a
mudança nas regras das pensões. É incrível que
pessoas que vão viver muito mais tempo fiquem
furiosas por não as deixarem reformar mais cedo.
Ainda mais tolo é, temendo pelas pensões futuras,
contestar as medidas que permitirão tê-las. A
maioria acreditou nos políticos quando eles
dramatizaram a falência da Segurança Social, mas
agora não acredita quando a mudança assegurou o
futuro. Mexer nas pensões é uma medida corajosa que
se deve louvar.
Estas duas políticas incompreendidas são motivos de
justo orgulho do Governo. Mas, ao mesmo tempo, elas
conduziram a uma das suas piores feições. Quando um
ministro precisa de tomar medidas difíceis e por
isso é muito contestado, acaba por se convencer de
que a contestação é um sinal de sabedoria e
actividade. O critério da boa governação passa a ser
a dureza, não a eficácia. Assim, começando no bom
caminho, entra em autismo, sem perceber que, a
partir de certa altura, já são os seus erros, e não
a incompreensão pública, o motivo das críticas. É
essa tentação terrível que tem conduzido à obsessão
regulamentar, ânsia inspectiva e corporativismo
clientelar.