Destak -
24 Jan 08
Liberdade
João César das Neves
Existe um grande mito acerca das
ditaduras. Pensa-se que elas costumam começar por
conquistas e opressões violentas de «malvados»,
conhecidos como tal, que agridem cidadãos inocentes.
Pelo contrário, a maior parte dos tiranos, antes
como hoje, subiu ao poder no meio de aclamações
populares, que os viam como defensores do bem e da
liberdade. Foi assim Calígula e Napoleão, como
Mussolini, Hitler, Staline, Mugabe, Khadafi, Chavez
e tantos outros. Os piores déspotas foram sempre
salvadores.
Como pode o povo, ansioso por
liberdade, cair nas mãos dos ditadores? A razão
central é sempre a mesma. Cada um aceita limitar os
outros que o prejudicam, acabando ele mesmo
limitado. Vão-se permitindo reduções da autonomia
pessoal em nome da defesa de valores fundamentais
como a justiça, honra, raça, patriotismo, conforto,
saúde e tantos outros. Até se limita a liberdade
para defender a liberdade, como face à ameaça do
terrorismo. Todas as ditaduras têm a sua base no
moralismo.
Também as razões que hoje, em
Portugal, presidem às recentes leis totalitárias são
as moralistas. A «tolerância zero» (só o nome
arrepia) nas estradas, a acção da ASAE e DGCI, a lei
anti-tabaco, video-vigilância e outras exigências
legalistas e burocráticas são instrumentos pensados
para viver melhor. Quem as defende esquece-se que
esses foram precisamente os argumentos usados há 80
anos pelo Estado Novo para se implantar. Então, como
agora, vendo cada uma das medidas repressivas
isoladamente, vê-se que elas pretendem melhorar as
coisas. Só reduzem mesmo a liberdade.