Público - 18 de Julho
Alta Autoridade Volta a Ter Presidente
Por MARIA LOPES
Torres Paulo tomou posse ontem
O novo presidente da AACS afirma desconhecer completamente a
realidade do audiovisual português, mas já sabe que o órgão é parco
em meios e regulamentação
Não acompanhou as recentes polémicas sobre os "reality shows",
nem conhece a realidade do audiovisual português, mas já sabe que no
novo cargo vai encontrar pelo menos dois problemas: falta de meios e de
regulamentação. É Armando Torres Paulo, o juiz conselheiro que ontem
tomou posse como presidente da Alta Autoridade para a Comunicação
Social (AACS), ocupando um cargo vago desde há três meses.
Num discurso repleto de reflexões filosóficas e de referências à
literatura jurídica, Torres Paulo destacou que todo o membro da AACS é
um juiz e que "a Alta Autoridade é uma entidade dotada de
competências: regulamentar, administrativa, consultiva, fiscalizadora e
jurisdicional". Lembrando que a independência do órgão é
reconhecida constitucionalmente, e caracterizando-o como uma "fonte
de direito 'sui generis'", o novo presidente ressalvou a
necessidade de a AACS "reflectir" sobre as questões "sem
se envolver afectivamente".
Torres Paulo desenhou até vários paralelismos entre as funções da
AACS e as dos juízes, nomeadamente como "suporte do natural
direito geral à liberdade". Mas deixou o aviso de que as
liberdades de expressão e de comunicação não podem contrariar os
valores do sistema jurídico.
No discurso que leu depois da cerimónia da posse - e que Almeida
Santos já não ouviu porque se retirou da sala depois das
felicitações ao novo presidente -, o juiz conselheiro lembrou que se
encontra há vários meses na Assembleia da República, à espera de
aprovação, o regulamento do pessoal da AACS, que classificou como
"veículo indispensável para viabilizar a eficácia e a dignidade
do trabalho" desenvolvido por este órgão. Esta foi, aliás, a sua
primeira reivindicação à frente da AACS, tendo afirmado depois aos
jornalistas que há pelo menos uma coisa que já sabe sobre este
organismo: "O pessoal é mais do que insuficiente para fazer todo o
trabalho."
Quanto a questões práticas, os conhecimentos do novo presidente
são bem mais reduzidos. "Não sei como é que funciona
efectivamente a AACS, os seus membros, as reuniões", afirmou,
recusando-se a fazer comentários sobre as funções que acabara de
assumir. "Não vou fazer qualquer observação para não dizer
disparates." Afirmando não fazer "a mínima ideia"
acerca da realidade do panorama audiovisual nem do debate sobre a
possível extinção da AACS a médio prazo, Torres Paulo também não
demonstrou qualquer interesse acerca das recentes polémicas que
envolveram os "reality shows". "Não acompanhei, não
quero saber, eu isolo-me", respondeu quando os jornalistas lhe
pediram um comentário sobre o assunto.
Apresentando-se como uma pessoa que tem a mania que só sabe
trabalhar, Torres Paulo contou que "estava a dez meses de atingir o
limite de idade no Supremo Tribunal de Justiça [altura em que teria que
se reformar], que é de 70 anos, quando soube que estava livre o lugar
de presidente da AACS".
Decidiu então "sacrificar o lugar de vice-presidente no
Supremo" por um cargo "muito interessante, ligado à vida
judicial", que lhe permite "uma prorrogação do final da
actividade". "Vou pedir a aposentação dentro de três ou
quatro dias. Assim espero cá estar mais uns quantos anos."
Armando Torres Paulo foi eleito para o cargo no passado dia 9 pelo
Conselho Superior da Magistratura (CSM). Com a tomada de posse de ontem
chegou ao fim um período de três meses em que a AACS esteve sem
presidente. Em Abril, o juiz-conselheiro Gonçalves Pereira deixou o
cargo a meio do seu segundo mandato para integrar uma comissão do
Ministério da Justiça. Em Maio o CSM escolheu o juiz-conselheiro Sousa
Diniz para lhe suceder, mas este acabou por renunciar ao cargo antes de
tomar posse. O cargo de vice-presidente é exercido pelo jornalista
José Garibaldi, eleito há duas semanas pelos restantes membros da AACS.