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Público - 1 Jul 05
Causa de morte:
direitos adquiridos
Miguel Sousa Tavares
Aprimeira designação que se deu aos célebres "direitos adquiridos" foi a de
"conquistas da Revolução". Em seu nome, o PCP, a CGTP e a extrema-esquerda
batalharam durante anos para que na Constituição e nas leis se mantivesse
inalterável o processo de ruína económica do país iniciado em 11 de Março de
1975, com as expropriações e nacionalizações de tudo o que era actividade
económica privada (do fundo da memória relembro um título da imprensa desses
dias, que dá bem a dimensão do absurdo a que se tinha chegado: "Trabalhadores da
Tinturaria Cambournac exigem a nacionalização").
Limpa a Constituição de alguma da sua baba ideológica, retomado algum bom senso
na gestão económica do país, as "conquistas da Revolução" recolheram ao museu
leninista de onde tinham sido episodicamente ressuscitadas e foram substituídas,
no léxico reivindicativo corrente, pelos "direitos adquiridos". Por "adquirido"
entende-se, basicamente, tudo aquilo que foi sacado ao Estado: regalias,
estatutos, dinheiro, licenças, subsídios, autorizações. Não abrange apenas
situações dos trabalhadores ou pensionistas públicos, mas de toda a gente que,
num momento ou noutro, teve a oportunidade de pedir e obter qualquer coisa do
Estado. Foi à sombra dos direitos adquiridos, por exemplo, que o país foi
integralmente vandalizado pela especulação imobiliária e pela construção sem
regras, de que aproveitaram e aproveitam não apenas empresas portuguesas, mas
também estrangeiras, apoiadas pelas respectivas embaixadas, sempre a lembrarem
ao Governo português os "direitos adquiridos" pelos seus súbditos em território
nacional. Uma vez estabelecido o "adquirido", ele passa a ter a qualificação de
"direito". E um direito ainda mais sagrado do que os direitos e garantias
individuais de natureza política, estabelecidos na Constituição e que, ao longo
dos tempos, têm vindo a ser revistos e diminuídos em nome de prioridades
securitárias.
Pode um desses "direitos adquiridos" não ter a mais pequena justificação social
ou política, pode resultar de simples favor ou privilégio estabelecido
momentaneamente ou à socapa. Não interessa: uma vez concedido, para sempre
garantido. Se algum ministro desejoso de criar bom ambiente nos serviços
estabeleceu um desses regimes especiais de reforma para os trabalhadores sob sua
alçada; se o Governo, preocupado com os incêndios, concede um subsídio de
campanha aos bombeiros; se uma associação obtém um subsídio para levar a cabo
determinado evento, tudo isso se torna imediatamente um direito adquirido, haja
ou não justificação, haja ou não cobertura orçamental.
Foi ao destapar a tampa do caldeirão deste mundo submerso da administração
pública, que o Governo acabou por revelar a grande parte do país que o
desconhecia a existência de um imenso universo de regalias, privilégios, regimes
de excepção e de favor em que vive todo o sector público. A título de exemplo,
eis o que fiquei a saber esta semana, lendo, ouvindo e tomando conhecimento de
algumas das razões do Governo para enfrentar o establishment dos direitos
adquiridos e as razões dos que, logicamente, o defendem:
- Os administradores da Caixa Geral de Depósitos, do Banco de Portugal e de
outras empresas públicas têm o privilégio de estabelecerem o seu próprio e e
luxuoso regime de reformas e pensões, sendo que os da Caixa têm ainda um prémio
por resultados - como se possível fazer a Caixa perder dinheiro!
- Um polícia, ouvido durante uma manifestação, explicava que estava ali a
protestar porque tinha 16 anos de serviço e 41 de idade e, quando estava a
contar com a reforma por inteiro aos 51 anos de idade, agora ameaçavam-no de ter
de trabalhar até aos 61!
- Um dirigente sindical dos praças da Armada, encabeçando uma manifestação,
dizia às televisões que, entre outras coisas, estavam a protestar porque se lhes
pretendia suprimir o "suplemento de embarque" (e eu fiquei a pensar se o
"suplemento de embarque" seria exactamente o que o nome indica e se será
possível que na Marinha de Guerra se receba um subsídio por entrar a bordo, que
é exactamente aquilo para que eles se alistaram).
- Os autarcas estão furiosos porque o Governo se propõe pôr um limite à batota
resultante da acumulação de vencimentos entre o cargo autárquico e a
administração das empresas municipais, que, como cogumelos, eles próprios criam,
na maioria dos casos exactamente para esse fim.
- Dez mil professores do ensino básico e secundário são pagos pelo Estado sem
dar qualquer aula: ou porque são delegados sindicais (1276!), ou porque estão
destacados no Ministério da Educação ou noutros serviços, ou porque não têm
horário distribuído, ou porque estão de baixa permanente, ou porque estão no
último ano antes da reforma e ficam dispensados de dar aulas (ou seja,
reformam-se, de facto, um ano mais cedo).
- Do Algarve, recebi uma carta dos professores de uma escola do ensino básico,
muito indignados por eu não entender que se possam reformar ao fim de trinta
anos de trabalho (de facto, 29). Indignam-se, desde logo, por eu os tratar não
pelo seu título de "Professores do 1º ciclo", mas sim como "professores
primários", designação que eu julgava conter em si mesma um elogio (juro não
mais voltar a dizer, nem em conversa de amigos, "a minha professora primária").
E indignam-se, sobretudo, por haver quem não compreenda: "A recompensa que muito
justamente nós merecemos ao fim de uma vida [?!] de muitos sacrifícios, muito
desgaste psicológico e muita entrega", que nada tem a ver com "o conforto de um
escritório, com ar condicionado no Verão e aquecimento no Inverno, no meio de
papéis, requerimentos, petições, etc.".
- Enfim, mais modestos, os enfermeiros fizeram greve esta semana pelo direito de
poderem continuar a reformar-se aos 57 aos de idade e 35 de serviço, devido ao
"grande desgaste físico e psíquico" da sua profissão.
Como aqui escrevi há dias, só é possível extrair uma conclusão deste mar de
reivindicações a que vimos assistindo: quem trabalha para o Estado, seja na
administração central ou local, ou nos organismos e empresas públicas, sofre de
um violento desgaste físico e psíquico, sem comparação com qualquer actividade
exercida no sector privado, e que faz com que constitua seu direito legítimo e
adquirido o de se reformar cinco, dez ou mais anos antes dos outros.
O problema - problema político e ético - da sua posição é que não se trata de
convencer o Estado das suas razões: esse já está ou já estava convencido, quando
lhes atribuiu os seus regimes de excepção. O problema é convencer os outros: os
que, não trabalhando para o Estado vão ter de pagar, com os seus impostos e com
o aumento de anos de trabalho as reformas dos funcionários públicos.
As centrais sindicais - a CGTP por convicção e estratégia, a UGT pelo eterno
medo de ficar atrás - andam entusiasmadas com tanta contestação. Vão ensaiando
greves e manifestações, até ao ensaio geral da greve da função pública, para daí
passarem a essa coisa sagrada e mítica que é a greve geral nacional. Eu, no
lugar dos seus dirigentes, teria mais cautelas: como revelou a sondagem do
PÚBLICO, segunda-feira passada, está já estabelecida uma clivagem clara, a nível
de opinião, entre os funcionários públicos e os restantes trabalhadores. E
estes, que estão expostos aos despedimentos e encerramento de empresas, a
salários que não são aumentados ano após ano, a horários semanais de 45 ou 50
horas, que não têm direito a baixas prolongadas e constantes, nem a férias de
seis ou oito semanas anuais, nem a licenças sem vencimento quando querem, nem a
reformas antecipadas, começam a questionar-se sobre os privilégios de que uns
gozam e outros não. Daí até perceberem que quem paga esses privilégios, além do
mais, são eles, vai um pequeno e perigosíssimo passo. Jornalista
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