Diário de Notícias - 4 Jul 05
Factos, confusões e verdades
António Pinheiro Torres
Movimento Juntos Pela Vida
O
debate lançado a partir das páginas deste jornal sobre o não cumprimento da lei
de 1984 (que regula as excepções à penalização do aborto em Portugal) é
claramente "um gato escondido com o rabo de fora". E é-o porque não só não
existe nenhuma evidência legal (queixa oficial no Ministério da Saúde ou em
Tribunal) de que a lei não seja cumprida, como se confundem deliberadamente duas
realidades distintas.
Na verdade, a lei de 1984 e de forma resumida, consagra três excepções à
penalização do aborto por violação, por malformação do feto ou por perigo para a
vida física ou psíquica da mãe. Ora, em bom rigor, qualquer uma destas
circunstâncias é distinta daquilo que se pretende com a liberalização do aborto
até às 10, 12 ou 16 semanas: que seja possível a sua prática, com simples
fundamento no pedido da mulher e sem que esta tenha de alegar qualquer razão
para o facto.
A confusão se bem que intencional tem uma justificação. Com uma lei em tudo
semelhante à nossa praticaram-se em 2003, na vizinha Espanha, 80 mil abortos
(portuguesas incluídas). Simplesmente esquece-se que destes abortos, 97% foram
realizados em clínicas privadas. E, como nos recordava há dias nestas mesmas
páginas um insuspeito médico português, é sabido que estes abortos são
realizados em condições de duvidosa legalidade. Isto é fora das condições e
prazos da tal lei "igual à nossa".
Quando a partir das páginas deste jornal é lançada a ideia (da leitura da
notícia não se conseguia perceber em que circunstâncias ou contexto teria o
Ministro da Saúde anunciado tal decisão) de realizar os abortos, ao abrigo da
lei de 1984, em clínicas privadas, o absurdo ultrapassou todas as marcas. Num
país em que o serviço nacional de saúde funciona com as dificuldades conhecidas
(veja-se o que se passa com as listas de espera) e onde felizmente a consciência
dos profissionais da saúde honra a tradição humanista de um país que se conta
entre os primeiros a abolir a escravatura e a pena de morte, surge a ideia de
criar "o melhor dos mundos" para o último dos problemas dos portugueses (mas
primeiro na agenda mediática de uns poucos).
O que se esconde de facto atrás desta campanha é outra realidade. A de aqueles
que não conseguem suportar que, pelo menos desde 1997, o povo português e os
seus representantes no Parlamento, lhe venha sistematicamente negando o aborto
livre e a pedido da mulher em tantas semanas quantas as possíveis. Trata-se dos
mesmos que envolvidos nas suas pressas e trapalhadas estão dispostos a revolver
o sistema jurídico para à força ainda encaixarem um referendo entre as
autárquicas e as presidenciais. Trata-se dos mesmos que desde Março de 2004
ainda não tiveram tempo, na Assembleia da República, para processar e discutir
em plenário, uma petição subscrita, em quatro semanas, por 217 mil cidadãos
portugueses, em que estes reclamam leis e medidas políticas adequadas à
protecção do embrião, à promoção da família e ao apoio às grávidas em
dificuldades.
Trata-se dos mesmos a quem repetimos as mesmas palavras que dissemos no final da
noite de 28 de Junho de 1998 [data da realização do primeiro referendo sobre a
interrupção voluntária da gravidez em Portugal] para nós o aborto é uma resposta
errada a um problema verdadeiro.
O nosso compromisso é pois o de proteger toda a vida humana desde a concepção
até à morte natural, dando a nossa vida para que não haja nas nossas cidades
nenhuma mulher que diga "eu abortei porque não encontrei quem me ajudasse".
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