Diário de Aveiro - 8 Jul 05
O ‘problema’
No dia 28 de Junho de 1998, os portugueses recusaram, em referendo, o aborto
a pedido. Hoje, dia 28 de Junho de 2005, o ministro Correia de Campos anuncia,
numa entrevista ao Diário de Notícias, que o «Serviço Nacional de Saúde vai
passar a pagar abortos legais efectuados no sector privado».
Não nos vamos deter na forma expedita que o ministro encontrou para «resolver o
problema». Quem estiver lembrado das acções de propaganda, das manchetes
absurdas dos jornais, das ‘notícias’ fabricadas nas televisões, dos números
fantásticos criados pelos promotores da liberalização do aborto, não se
espantará com o método encontrado pelo ministro. Não devemos estranhar,
portanto, que questão tão grave seja ‘resolvida’ numa entrevista a Fernanda
Câncio e sustentada pelas opiniões do obstetra Manuel Hermida, conhecidos
activistas da ‘causa’. Queremos apenas denunciar a falsidade das premissas de
que parte o ministro, a ilegitimidade das conclusões, os previsíveis efeitos da
‘solução’.
Diz o ministro que pretende ‘resolver’ o «problema do incumprimento da actual
lei da IVG» pelos hospitais, que assume «sérias proporções no nosso país e
radica provavelmente na objecção de consciência por parte dos profissionais dos
estabelecimentos públicos». O ministro e o jornal que o entrevistou apresentam
como verdade insofismável uma opinião: nenhum número, nenhum dado objectivo
confirmam tal afirmação. Conviria que dissessem qual a percentagem de objectores
de consciência em relação aos casos previstos na lei, qual o número total de
IVGs praticadas nos serviços de obstetrícia, qual o número de pedidos
rejeitados, quais os motivos da recusa. Não apresentam estes dados, porque de
facto não o podem fazer: as conclusões iriam em sentido contrário ao pretendido.
É que, como muito bem sabem os profissionais desta área, as coisas passam-se de
outra maneira: a generalização do diagnóstico pré-natal tem levado à prática de
abortos na base de frágeis previsões; em certas unidades de saúde, basta
admitir-se a mera probabilidade de malformação – e como é elástico este conceito
– ou de se vir a ter uma doença hereditária, nem que seja aos trinta ou
cinquenta anos, para se avançar para o aborto ‘terapêutico’. A lei talvez não
seja cumprida, mas por excesso, não por defeito.
À falta de informação, argumenta-se casuisticamente: «Há casos de mulheres que
andam de unidade de saúde em unidade de saúde, à procura de uma decisão
favorável». Não interessa validar este dado, saber quantos são esses casos e
quais as razões das recusas: continuamos no domínio da opinião. Diz ainda o
ministro que não põe em causa o respeito pela objecção dos profissionais de
saúde; se assim é e se a objecção de consciência se coloca relativamente às
situações previstas na lei em vigor (nem poderia ser de outro modo), não há que
estranhar que os procedimentos não sejam exactamente iguais entre as unidades de
saúde. O que não parece legítimo é que, de premissas infundamentadas, se retire
a conclusão que convém a interesses bem conhecidos. Objectivamente não se sabe
se os serviços públicos cumprem a lei, mas pretende-se que sirva esse argumento
para privatizar a sua aplicação.
O ministro ‘resolve o problema’: contra a vontade da maioria dos portugueses,
vai pagar com o dinheiro dos contribuintes a prática da IVG nas clínicas
privadas. Como será do interesse das partes usar tal subsídio, não se prevendo
qualquer avaliação dos casos que surgirem nem a sua conformidade com o quadro
legal, fatalmente o Estado acabará financiando abortos que não cabem nas
situações previstas na lei. A consequência da medida anunciada será pois esta:
sem referendo, sem decisão da Assembleia da República, uma simples medida
administrativa vai, na prática, ‘legalizar’ o aborto a pedido. O espírito
democrático destes filantropos contenta-se com um referendo que venha depois
alargar a política oficial.
Como se tudo isto não fosse já suficientemente grave, há ainda a questão da
oportunidade e da falta de critério no uso dos recursos que a todos pertencem.
Fecham escolas básicas e secundárias por falta de alunos, não há candidatos para
muitos cursos do ensino superior, o sistema de segurança social ameaça entrar em
falência devido à redução da população activa, mas insiste-se em políticas
antinatalistas. Não há dinheiro para comparticipar os gastos de saúde dos
diabéticos e de outros doentes crónicos, mas há dinheiro para fazer prosperar o
negócio do lobby das clínicas de abortos. Em tempos de austeridade, quando
importa reduzir drastica-mente a despesa pública, esta intenção do ministro
mostra um sentido de oportunidade inacreditável.
Belmiro Fernandes Pereira, membro da Direcção da Associação de Defesa e Apoio à
Vida (Adav-Aveiro)
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